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Brasil

Tipos de ondas e influência do fundo na sua quebra

Douglas Nemes, PhD.

Aprenda como a forma e a composição do fundo influencia no tipo de onda que você surfa.

Já sabemos que as ondas que surfamos são formadas pelos ventos. Também compreendemos que todos as superfícies de água são capazes de gerar ondas. Isso depende da intensidade, duração e tamanho da pista de ventos. Desse modo, podemos notar que há milhares de tipos de ondas possíveis de serem formadas. Mas como definimos um tipo de onda? 

O tipo de onda é definido pela relação entre o comprimento e altura da onda, resultando na esbeltez ou declividade da onda. Observe a imagem a seguir:

Na imagem acima, podemos interpretar que se mantermos fixa a altura (eixo vertical) e aumentarmos o comprimento da onda (eixo horizontal) a declividade ficará cada vez menor. Por outro lado, se diminuir o comprimento da onda a declividade ficará cada vez maior. Fisicamente, isto significa que com maiores comprimentos de onda (portanto, maiores períodos de onda) teremos a energia (altura da onda) sendo distribuída por uma área horizontal cada vez maior. Já com curtos períodos de onda temos a energia da onda bem restringida horizontalmente.

Portanto, o tipo da onda depende dos seus parâmetros: altura e período. A combinação destes dois parâmetros define como a onda vai “enxergar” o fundo da sua praia ou reef (coral) ou laje etc, e gerar uma onda surfável ou não.

Agora reparem nesta equação que representa a quebra da onda:

O valor da altura de quebra da onda também será modificado pelo tipo da onda que está chegando. 

Então, quanto maior energia está distribuída ao longo do comprimento da onda (portanto ondas de alto período), maior será a desaceleração da onda e empilhamento da energia sobre a bancada, o que chamamos de empinamento da onda. Neste momento a onda terá o valor de altura somado ao fator de empinamento. Teremos aí o valor da altura da quebra da onda.

Na ciência existem muitas equações de quebra de ondas (mais que 50), cada uma delas consegue representar muito bem um tipo de condição de praia/reef/laje etc. 

Pipeline no Hawaii é um exemplo de reef break, onde o fator de empinamento da onda é grande devido às bancadas de coral. (Foto de Jess Vide; fonte: Pexels)

Somadas a isso, o tipo de composição do fundo também introduz um fator no valor da quebra da onda. Os fundos rígidos, como lajes de pedras lisas são os que têm maior fator de empinamento. Numa sequência de ondas com menores à maiores valores de empinamentos sobre o tipo de fundo temos o seguinte: areia fina, areia média, areia grossa, rochas e recifes de coral. Este último ainda tem a maior capacidade de convergência da energia da onda sobre sua crista, transformando o valor de altura da onda em mais de 75% acima do “original” (água profunda).

Na praia da Barra, assim como na grande parte das praias do Rio de Janeiro, ocorrem ondas com baixo fator de empinamento devido ao fundo de areia. Foto: Paulo Quintanilha (@pauloquintanilha) 

Por exemplo: uma onda de 1m com 10s de período pode chegar a 1,3m de altura de quebra de onda. Já se o período tiver 15s a onda pode passar de 1,5m na altura de quebra sobre uma bancada rígida.

Quando fizer o check da previsão no Surfguru passe a observar mais o período da onda e quanto de energia ela está carregando, pois a energia pode duplicar o valor da altura durante a quebra na bancada.

Sugestão de leitura complementar:

- Como e porque as ondas se formam

- A influência das águas rasas na formação de ondas

- Entenda a energia e a potência das ondas

- O período e o intervalo entre as séries


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Douglas Nemes é um surfista ex-competidor, que teve a oportunidade de levar todo o conhecimento empírico adquirido nas ondas de inúmeras praias por onde passou nesse planeta para dentro da academia. Douglas formou-se Oceanógrafo Físico na UNIVALI. Fez Mestrado em Sistemas Costeiros e Oceânicos na Universidade Federal do Paraná UFPR em 2011. Em 2016, completou o Doutorado em Engenharia Oceânica na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Instituto de Pesquisa e Engenharia COPPE, cujo instituto de pesquisa é o mais importante das Américas. Por fim, em 2018 fez um pós-doutorado em Engenharia Costeira, numa parceria entre UFRJ e Universidade Federal do Pará UFPA. Ao longo de quase 20 anos de acadêmica, Dr. Nemes desenvolveu técnicas para qualificar a quebra de ondas em praias oceânicas, publicou trabalhos científicos nacionais e internacionais sobre os principais fenômenos meteorológicos na costa sul da América do Sul e o desenvolvimento de uma tecnologia de proteção costeira multifuncional capaz de recuperar praias erodidas, gerando condições perfeitas para a prática de esportes náuticos. Atualmente trabalha na coordenação de levantamentos hidrográficos e processamento de dados para engenharia costeira em portos e hidrovias brasileiras, a fim de serem aproveitados pelo Centro de Hidrografia da Marinha do Brasil na atualização de cartas náuticas.

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