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Previsão de ondas para o surf: entenda como é feita

Patrick Derviche

Saber as condições para o próximo swell é essencial, mas como a previsão das ondas funciona?

No século XVIII, o capitão James Cook, um grande explorador inglês, fez o primeiro relato histórico do surf, contando como ficou hipnotizado pelos locais remando suas canoas e surfando as ondas. Apesar desse registro, não se sabe exatamente onde ou quando surgiu o surf, se a origem é polinésia ou peruana, porém sabemos que os primeiros surfistas não tinham ao seu dispor a previsão do tempo ou das ondas. Eles se baseavam no próprio conhecimento e experiência, ou pelo tradicional check na praia.

Pode-se dizer que a meteorologia, e assim a previsão das ondas, começou com os primeiros cálculos na década de 1920 feitos por Lewis Richardson, matemático inglês. Através do avanço da tecnologia e chegada dos computadores, ocorreu um grande salto na precisão das previsões. Hoje contamos com agências mundiais com sistemas de supercomputadores e extensas redes de abastecimento de dados, vindos de estações de superfíce, satélites, navios, voos comerciais e balões meteorológicos.

Foto de Alexandre Weiss (Fonte: Pexels)

O papel do vento

Para ter uma ideia de como é feita a previsão de ondas, partimos do princípio que as ondas são geradas pelo vento. As características das ondas dependem de três fatores: velocidade, duração e pista do vento. A lógica é linear, quanto maior a velocidade, a duração ou a pista, maiores serão as ondas. 

A sinergia desses fatores influenciam o tamanho, o período e a direção da onda. No momento em que as ondas são formadas no próprio local, sob a influência do vento, são chamadas de vagas. Quando se formam próximo da costa, é o storm, aquelas ondas grandes, sem formação e mexidas, com muito vento.

Então, quando uma tempestade ocorre no vasto oceano, as vagas são formadas e viajam pela imensidão azul por longas distâncias. À medida que se deslocam, o vento diminui sua força à ponto de cessar, e suas formas e aparências se ordenam e organizam. A partir do momento em que chegam à costa, com boa formação e sem vento, recebem o nome de swell (ou marulho, em termos técnicos). O swell nada mais é que ondas formadas fora do seu local de origem, bem alinhadas e com grande tamanho.

Embora possa parecer simples, as ondas da costa em águas rasas interagem com o fundo e são muito mais complexas em termos de previsão do que as do oceano. A interação com a geometria do fundo (batimetria), incluindo vários fatores como a refração, difração e reflexão, molda o formato das ondas. Em razão disso, existem diferenças entre a previsão costeira e oceânica.

Exemplo de um mar storm. Foto de Nicklas Toft (Fonte: Pexels)

Maré

Todos os surfistas estão atrás do swell. No entanto, para boas condições de surf, outra questão que levamos em consideração é a maré, que curiosamente também é uma "onda". Na verdade, uma onda bem mais lenta, que demora horas para subir e descer. Em questões de previsibilidade, os swells são mais imprevisíveis que as ondas de maré.

A maré astronômica, influenciada principalmente pela lua, possui uma previsão muito acertiva. Pequenas mudanças ocorrem dependendo do vento que a partir daí recebe o nome de maré meteorológica.

Exemplo de um swell rolando. Foto de Pixabay (Fonte: Pexels)

Modelos de previsão

Uma vez que o oceano e atmosfera estão interligados, podemos perceber que a previsão do vento é essencial para prever a qualidade das ondas. É aí que entram os modelos de previsão atmosféricos.

Na década de 1960, Edward Lorenz, meteorologista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, estava fazendo modelos de previsão atmosférica e notou que os computadores deram resultatos diferentes para o mesmo cálculo. Ele então apelidou o fenômeno de efeito borboleta, que “o simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode ocasionar um tornado no Texas”. Isso porque uma pequena diferença nos modelos, pode trazer uma previsão muito diferente por mais de alguns dias.

Uma pessoa muito importante para a previsão de ondas foi Sean Collins, surfista apaixonado pelo oceano e pela meteorologia, que começou a fazer comparações entre as cartas sinóticas e suas observações na praia. Ele então criou a Surfline, um serviço de chamadas fornecendo previsões das condições de ondas no sul da Califórnia. Surfline expandiu seus conteúdos e hoje é um dos maiores sites relacionados ao surf, principalmente nos EUA.

Sim, o mundo natural é complexo, e todos os modelos estão sujeitos à erros. Não existe oráculo na previsão das ondas. Porém, recentemente cada vez mais os modelos se tornam mais precisos. 

Atualmente, existem diversos modelos de previsão atmosféricos, como por exemplo, o americano Global Forecast System (GFS) da NOAA, o europeu European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF), o brasileiro Brazilian Global Atmospheric Model (BAM), entre vários outros. O Surfguru utiliza um dos modelos de maior precisão, o WaveWatch III Model que é baseado no GFS. Nas tábuas de maré, o SurfGuru utiliza dados da Marinha do Brasil e xTides.

Exemplo de previsão para praia de Regência - Espírito Santo, usando o modelo WaveWatch III (GFS) utilizado pelo SurfGuru.

Dicas de previsão e conhecimento local

Há três dicas simples para a previsão das ondas. A primeira é que quanto mais distante no tempo a previsão, menos confiável ela é. A segunda é que vale a pena comparar os modelos de previsão, pois trará resultados mais acertivos na sua interpretação. A última é que se a previsão diz que será flat, pode ter certeza que será flat.

Por fim, é importante saber como funciona a previsão de ondas e quais modelos que são usados. Mais essencial ainda é o conhecimento local, como faziam os primeiros surfistas e, além disso, a interpretação da previsão. A orientação da praia, morfologia e tipo do fundo possuem importante papel para moldar as ondas. A dica é ficar atento à previsão e de olho nas condições de surf locais. Conhecer qual é a melhor direção do swell, altura da maré e condição do vento na praia que surfa é fundamental.

E é claro, aqui no Surfguru nós oferecemos todas as ferramentas que você precisa para saber quando e onde vai estar clássico para você nunca perder o surf. Assine o PRO e tenha acesso a várias vantagens!

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Patrick Derviche é surfista e pesquisador. Começou no surfe em 2008 em Pontal do Sul — PR e segue até hoje. É Oceanógrafo, MSc pela UFPR. Atualmente, é doutorando em Oceanografia Ambiental pela UFES. 

Instagram: @pderviche

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