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Noronha nunca foi apenas um destino: um relato de temporada de surf na ilha

O relato de Juliana Frare sobre encarar ondas pesadas, evoluir no mental e se conectar com o oceano

09/Fev/2026 - Juliana Frare - Fernando de Noronha (PE) - Brasil
Desde o primeiro contato, a ilha deixa claro que é um organismo vivo: respira forte, observa em silêncio, testa seus limites e, se você chega aberta e verdadeira, ela te acolhe. Essa minha primeira temporada foi um mergulho em um universo paralelo onde o surf é apenas a porta de entrada para tudo o que se sente, aprende e se transforma.

A convite do meu irmãozão Noa, parti do Guarujá com a ideia de ficar apenas cinco dias. As crianças estavam viajando de férias e eu teria, enfim, um tempo para descansar depois de um ano intenso entre treinos, rotina e maternidade. As previsões do Surfguru indicavam um swell muito bom, nada extremo, mas perfeito para esse momento. Em três dias organizei tudo, passagens, hospedagem, equipamentos e fui. Fui sem saber exatamente o que ia acontecer, com alguns planos na cabeça, mas logo entendi que Noronha não gosta de roteiros.

A ilha se revela no acaso. Fiquei hospedada em uma pousada com uma energia especial, onde as manhãs começavam com encontros no café, risadas soltas, trocas espontâneas. Cada um seguia seu caminho depois, mas já conectados. Amizades inesperadas passaram a fazer parte do dia a dia, como se sempre tivessem estado ali.

Todas as manhãs , após os checks no grupo, eu seguia para a praia ,de carona, de táxi, andando e chegava ao paraíso. Ao mesmo tempo, a saudade dos meus filhos caminhava comigo. Eles estavam longe, vivendo suas próprias descobertas. Entre uma sessão e outra vinham mensagens, áudios, chamadas rápidas. Eu estava distante fisicamente, mas emocionalmente inteira. A saudade doía, mas não paralisava. Pelo contrário: me lembrava por que eu precisava estar ali, vivendo meus sonhos, sabendo que em breve estaríamos juntos de novo. Esse equilíbrio delicado entre amor e propósito me acompanhou em cada remada, em cada espera no outside.

A Cacimba do Padre se tornou o centro de tudo. Uma onda técnica, tubular, pesada, que não permite distração. Nada ali acontece no automático. Cada entrada exige leitura rápida, precisão e respeito. É uma onda que não se entrega fácil e eu também não. Levei dias para me adaptar, observando, errando, ajustando, tomando vacas e caldos que pesavam no corpo e no ego. A cada sessão, uma conversa silenciosa entre medo, coragem e vontade de evoluir.

E tudo isso acontece em um cenário que não se explica. Se sente. Estar dentro d’água em Noronha é aceitar que o controle nunca é seu. Ver tubarões cruzando o line-up provoca um frio imediato na espinha e deixa claro que aquele território não nos pertence. O mar ali tem presença, peso, uma força quase magnética, capaz de te colocar no lugar certo: pequena, atenta, humilde e absolutamente viva.

Entre um dia e outro, fui conhecer outros picos na ilha, e um deles, Boldró, me ganhou de imediato, com direitas fortes e lindas sobre fundo de laje, ondas que exigem atenção, mas devolvem fluidez, prazer e aquele sorriso inevitável dentro d’água. Na Conceição, no Meio e no Cachorro o surf ficava mais solto, mais leve, com risadas no line-up, trocas espontâneas e a lembrança essencial de que o surf também é jogo, alegria e respiro. E a Comporta completou esse cenário diverso, junto com as sufistas Meg, Ellen e Lau Kassuga, mostrando que Noronha não oferece um único tipo de onda, mas um aprendizado para todos os níveis de surf.

Quando meus dias pareciam chegar ao fim, um novo swell começou a aparecer nas previsões. Maior, mais intenso, mais desafiador. Um big swell. A cada dia, o assunto dominava as conversas na ilha. Não foi uma decisão racional ficar e sim emocional, o desejo de estar em um swell clássico que ia rolar.

No dia 30 de janeiro, dia do meu aniversário, ele chegou. Um presente raro. Tive o privilégio de dividir o line-up com surfistas locais de intimidade impressionante com aquele mar, além de profissionais importantes do cenário nacional. O nível de surf transformava cada onda em espetáculo. Só estar ali já era aprendizado. Estar dentro, dividindo ondas, respeitando prioridades, proseando e sentindo o silêncio coletivo antes do drop foi algo raro, emocionante, difícil de explicar.

As ondas passaram a pulsar entre oito e dez pés, trazendo um mar grande, sério, cheio de intenção. Entrei acompanhada pelo Buday, big rider local e referência ali, que me emprestou uma prancha do seu quiver e meu parceiro de trip Noa, os surfistas Luiz Hadad, Allan Serrano, Victor Dutra, os locais Nicássio, Cassiano e Alan Rangel, que me incentivaram e vibraram por estar ali, além dos mestres da fotografia Sinkus, Marcelo Freire e Tinoco, que estavam sempre com suas lentes atentas para registrar o momento perfeito. Lá dentro d’água, eles foram me orientando, ajudando na leitura e no ritmo. Passei quase cinco horas no mar. Peguei poucas ondas, mas inesquecíveis. Cada minuto serviu para entender o tempo do oceano e respeitar o meu próprio.

Entre uma espera e outra, os pensamentos nos meus filhos voltavam. Um sorriso lembrado, uma mensagem recente, um “te amo” ecoando enquanto eu observava o horizonte. Aquilo me ancorava. Me mantinha lúcida. Me lembrava que eu precisava estar inteira ali, mas principalmente inteira para voltar.

No segundo dia, o desafio deixou de ser físico. Com ondas entre dez e doze pés, rápidas e pesadas, o medo apareceu de um jeito mais profundo, aquele que bagunça o mental, confunde decisões e enfraquece a presença. O mar seguia lindo, intenso, mas algo dentro de mim começou a oscilar. Vieram cobranças internas, comparações silenciosas, pressões externas, questionamentos sobre meu surf e sobre uma trajetória ainda recente nas ondas grandes. Algo comum a qualquer surfista, mas que, naquele contexto extremo e num momento de vulnerabilidade, me desconectou. Perdi foco, calma, autoconfiança.

Misturado a tudo isso, veio o pensamento mais forte: o desejo profundo de voltar inteira para os meus filhos. Ainda assim, continuei. Tomei caldo, lutei contra a correnteza para entrar de novo, tentei mais uma vez. Cada remada era um enfrentamento interno silencioso. Cada tentativa, uma escolha consciente.

Até que o inesperado aconteceu. Uma colisão com outro surfista resultou em um corte profundo no dedo, seis pontos, que me tirou da água justamente no auge do swell para o qual eu tinha ficado. A dor física veio junto com a frustração emocional, mas ficou claro que era hora de sair. Fui rebocada e acompanhada pelo Noa, pelo Cassiano, local do pico e pelo surfista envolvido, que deixaram suas ondas de lado para garantir minha saída e minha ida ao hospital. Um gesto que diz muito sobre o que realmente importa no mar.

Ao sair da água, vivi um dos momentos mais marcantes da viagem. Pessoas se aproximaram com respeito genuíno, palavras sinceras, reconhecimento real. Falavam sobre representatividade, sobre força, sobre o impacto de uma mulher estar ali, naquele mar, naquele tamanho. Aquilo me trouxe acolhimento e tranquilidade depois do acidente. E não só no surf, mas em uma surpresa maravilhosa feita pela Sabrina Schultz com um bolo e parabéns divertidiísimo com todos em comemoração do meu aniversário!

Hoje, com mais clareza, entendo que talvez aquele momento fosse um convite para parar, respirar e me recolher. Proteger minha energia. Mas também sei que viver tudo isso foi essencial, big surf é acima de tudo, mental. Estar ali não era só sobre mim, era sobre o big surf feminino , que ainda é resistência. era sobre ter nosso espaço, abrir caminho, mostrar que pertencemos com preparo, respeito e amor.

No dia seguinte, o mar havia diminuído um pouco, mas seguia grande e desafiador. Era meu último dia de surf na ilha e eu precisava me despedir. Mesmo com dor resolvi entrar, fiz um curativo improvisado, consegui uma luva no restaurante para proteger a mão e fui. Mais preparada, mais leve, mais conectada. A dor existia, mas a presença era maior. Foi um domingo de surf profundo, intenso, consegui pegar ondas maravilhosas e que me desafiaram como poucas ao longo da temporada. Vieram vacas, caldos sinistros, daqueles que testam o corpo e o mental, mas que também fazem parte da evolução. Era o mar me lembrando, uma última vez, por que eu tinha ficado.

Tudo em Noronha foi intenso: as comemorações, as frustrações, as risadas, os choros. Mas o que mais me marcou foi a forma como fui recebida, desde o primeiro dia, senti respeito dentro e fora d’água, todos os surfistas e as meninas locais foram um capítulo à parte, o acolhimento, o incentivo, os sorrisos, as palavras de força, dividir experiências com todos eles foi potente, simbólico e em muitos momentos, me senti pertencendo.

Noronha não é só surf, é a ilha inteira, são as amizades que nascem rápido e ficam profundas, as risadas depois das sessões, as trocas verdadeiras, a natureza exuberante, a sensação constante de viver algo raro, quase sagrado.

Essa primeira temporada me mostrou meus medos, minha força e minhas falhas e me devolveu tudo isso com verdade. Saí de Noronha com mais fome de mar, mais vontade de evoluir e mais certeza do caminho que escolhi. Voltei com o coração cheio para reencontrar meus filhos, para o abraço que cura qualquer queda. E a certeza que ficou é simples, intensa e definitiva: eu quero mais e é exatamente ali, nesse encontro entre medo, coragem e amor, que eu sei que pertenço.

 

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Juliana Frare é mãe de 4 filhos, jornalista e surfista de ondas grandes, dedicada no desenvolvimento no big surf feminino.