Hawaii - Estados Unidos

Maya Gabeira prepara volta às ondas gigantes após duas cirurgias na coluna

Carol Fontes - GloboEsporte

Após aproveitar fim da temporada havaiana, carioca fará expedições pelo Hemisfério do Sul e planeja para outubro de 2015 o retorno a Nazaré, onde sofreu grave acidente.

Ela é não é do tipo que se deixa abalar pelo medo do perigo. Não por acaso se tornou  uma referência de coragem, talento e preparação física e mental na hora de encarar os mares mais assustadores. Aos 27 anos, a carioca Maya Gabeira é considerada uma das melhores surfistas de ondas grandes do mundo e já venceu cinco vezes o prêmio XXL Awards pela categoria de "melhor performance feminina", uma espécie de "Oscar" do surfe. Por conta de um problema de hérnia de disco que vinha incomodando a surfista há alguns anos, mas que se tornou insuportável há um ano, ela precisou ficar fora de combate. Fez duas cirurgias nas costas e fez um tratamento intensivo em Los Angeles, nos Estados Unidos. Praticamente recuperada, a carioca deverá voltar a surfar ondas maiores a partir de janeiro. 

Foram muitas crises agudas de hérnia de disco até que a carioca tomasse a decisão de operar. A situação estava insustentável, atrapalhou o seu desempenho e a obrigou a adotar diferentes estratégias para compensar o incômodo e a falta de sensibilidade na perna direita. Após sofrer uma queda em uma gravação de um comercial no Taiti, na qual fraturou o nariz, em junho, as dores aumentaram e Maya se submeteu à primeira cirurgia nas costas no mês seguinte. Iniciou o processo de recuperação com sessões de fisioterapia, mas os exames apontaram uma outra hérnia no mesmo lugar. Em setembro, fez a segunda intervenção.

- Eu já sofria há anos com uma hérnia de disco, que piorou muito depois de Nazaré. Eu entrava e saía de crise toda hora e não estava mais conseguindo surfar direito. Depois do acidente no Taiti, vi que não voltaria a surfar tão cedo se não operasse. Agora eu estou ótima. Fiquei quatro meses reclusa, mas voltei a surfar recentemente no Rio de Janeiro gravando uns comerciais. Para voltar a surfar onda grande é que vai demorar mais. Preciso fazer um trabalho de base para fortalecer o abdômen e corrigir uma mecânica que ficou comprometida por anos. Sou muito tranquila e já passei por muitos períodos de reabilitação na minha vida, mas a recuperação da coluna foi bem restrita. Fiquei muito tempo sozinha em casa e vi todos os filmes possíveis - contou Maya.

Ao todo, a surfista ficou afastada do surfe por quatro meses, quase uma tortura para quem vive na praia. Precisou ficar deitada por dias e dias (um mês para cada operação) olhando para o teto ou assistindo a filmes pela televisão, afinal, a recuperação exigia repouso completo. Recentemente, voltou a surfar "de leve", uma ou duas vezes na semana, recuperando o ritmo e preparando o terreno para voltar a enfrentar os "monstros dos mares". Depois de passar alguns dias no Havaí, ela planeja retornar ao arquipélago em fevereiro e março para mergulhar no universo do surfe. Em seguida, a carioca pensa em fazer uma viagem pelo Hemisfério Sul, ainda sem roteiro definido. 

- Quero pegar o fim da temporada havaiana, que é um período que eu gosto das ondas e posso surfar em paz, com menos gente. Já estou há dois anos sem surfar no Havaí, nunca pensei que isso fosse acontecer na minha carreira. Vai ser bom para pegar o ritmo antes de voltar para o Rio de Janeiro e depois viajar pelo Hemisfério Sul. Só não sei se é realista da minha parte voltar a surfar ondas gigantes, mas vou voltando aos poucos - disse a carioca.

Retorno a Nazaré em 2015

Maya já enfrentou ondas grandes no mar gelado do Alasca, foi a primeira mulher a surfar na temida bancada de corais de Teahupoo, no Taiti, e quase perdeu a vida ao surfar um "tsunami" na Praia do Norte, em Nazaré, Portugal, no dia 28 de outubro de 2013. Foi como se entrasse em um ringue com Mike Tyson, viu a morte de perto ao ser engolida pelo mar, foi resgatada e reanimada na areia pelo amigo e companheiro de equipe Carlos Burle, saindo do grave acidente “apenas” com uma fratura na fíbula da perna direita. 

Estava tudo armado para ela ir ao local um ano depois do episódio quase fatídico, ao lado de Burle e Pedro Scooby, mas a surfista precisou desistir da expedição por não estar recuperada da lesão nas costas. Os companheiros de equipe voltaram a surfar em Nazaré e, quando se lembraram da amiga, um arco-íris apareceu no mesmo lugar em que a carioca renasceu.

- Fiquei sabendo que apareceu um arco-íris quando eles se lembraram de mim em Nazaré. Eu sempre falo com o Burle, não só por sermos muito amigos e trabalharmos juntos há nove anos, mas porque ele já se acidentou muito, teve um problema delicado na coluna, sabe o que eu estou passando e o quanto é importante eu manter o contato com o mar e estar ligada no surfe. Eu estava superanimada para voltar a Portugal, mas, quando passei pela segunda cirurgia, ficou impossível. Eu não teria condições físicas, por isso, adiei para 2015. Para voltar lá, preciso estar muito bem fisicamente para aguentar. Não tive escolha, aceitei e pronto. 

Futuros planos

Antes de ir a Portugal, ela deverá realizar expedições em lugares como Indonésia, Fiji e México, sem deixar de lado o Havaí, um lugar especial em sua vida. Foi lá que ela viveu por cinco anos, se bancou trabalhando como garçonete e se tornou profissional.

- O Havaí é muito especial para mim, trabalhei como garçonete por quatro anos para me sustentar. Quando não tinha onda aqui, eu ia para Indonésia ou outros lugares. Mas, depois que virei profissional, precisei ficar em lugares mais frios, onde tinham ondas maiores. Me tornar surfista de onda grande foi uma coisa que foi acontecendo. Amo ter novos desafios, viajar pelo mundo, mesmo que eu viaje para os mesmos lugares, é sempre um recomeço, uma nova experiência. A minha vida é feita de retalhos. Não consigo ficar parada e sou fissurada em surfar.

Virar surfista parecia algo inimaginável para uma menina que chorava para não ter de ir à praia e odiava o contato com a areia. Maya começou a surfar tarde, aos 14 anos, por influência de um namorado. Para não ter de passar horas o esperando na beira do mar, seja no Arpoador, no Rio de Janeiro, ou em lugares mais distantes, como a Bahia e a Guarda do Embaú (SC), ela resolveu aprender a surfar e nunca mais parou. Em um intercâmbio cultural de um ano e meio na Austrália, se descobriu atleta. Depois, foi reconhecida no berço do esporte.

Após quatro anos no Havaí, de 2004 a 2009, Maya morou os últimos anos em Venice Beach, balneário charmoso que pertence a Los Angeles, perto de Santa Monica, um reduto de artistas de rua, skatistas e da elite cultural californiana. Hoje, Maya se vê como uma cidadã do mundo,  dividida entre a vida na Califórnia e o Rio de Janeiro, mas deverá passar a maior parte do tempo na capital fluminense, onde está com um apartamento quase pronto.

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