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A quarta revolução das quilhas

Guilherme Pallerosi

O que faz um modelo ou design de prancha perseverar e outros parecerem experiências bizarras?

Vantagens técnicas, perseverança dos shapers, o marketing das marcas de surf, destino, sorte? A invenção das pranchas de quatro quilhas no início da década de 1980, o seu esquecimento e a volta triunfal nos últimos anos trazem esta dúvida. Nos anos 70 havia uma a disputa dentro e fora do mar para encontrar o melhor design de pranchas, até a febre as pranchas de 3 quilhas entrarem em cena no início da década de 1980, tornando-se unanimidade. Consecutivamente, outro modelo de prancha aparecia nos campeonatos de forma tímida e despretensiosa, as quadriquilhas ou quad fin.

O primeiro shaper a construir uma prancha com quatro quilhas não dá para saber quem foi, mas o brasileiro Ricardo Bocão foi sem dúvida o pioneiro da década de 1980 que desenvolveu pranchas de quatro quilhas e disputou campeonatos ao redor do mundo com elas, comprovadamente por fotos e matérias em revistas de surf (normalmente ironizando o “excesso” de quilhas). No entanto, o mérito foi para outro shaper e surfista profissional, o australiano Glenn Winton, conhecido como Mr X, famoso por seu estilo de surfar e por aparecer numa final do mundial na década de 80 com uma quad fin. Acho que já ouvi esta história antes, afinal quem inventou o avião foi Santos Dumon ou os irmão Wright? Muitos gringos dizem ser os Wright, mas sabemos que foi Santos. O que se sabe é que Ricardo Bocão concebeu o primeiro modelo 1981, inspirado pela evolução da Thruster, passando a usar as quatro quilhas em campeonatos ao redor do mundo e nas praias brasileiras. O fato é que nem Bocão nem Glenn Winton conseguiram vender a ideia durante os anos 80.

Ao longo dos anos 80 e 90 outros shapers foram aperfeiçoando a quadfin, mas sem muita popularidade. Na década de 1990, surfistas como Tom Curren e Tom Carrol, apareceram surfando quadriquilhas e elogiando a desempenho da prancha, mas sem levantar bandeiras para o assunto.

Mais atualmente, Andy Irons e principalmente Kelly Slater, tomaram gosto do modelo, popularizando as quadfin entre os surfistas e abrindo um novo mercado. Atualmente, o que há de mais versátil e inovador em termos de design são as pranchas com capacidade para até 5 quilhas que, com um bom quiver pode adaptar o equipamento á diversos tipos de onda, condição de mar ou tipo de lazer que se deseja.

Mas porquê não deu certo com o Bocão ou Mr. X? O mercado estava muito deslumbrado com a Trusther para se abrir às novas ideias? Faltou algum grande surfista ou guru do esporte comprar o conceito das quadfin? Talvez uma junção de fatores, mas uma coisa é certa, no mundo das invenções tem dessas coisas, muitas vezes uma inovação boa não está adequada ao seu tempo, precisa maturar. Resta apenas dar os créditos aos criadores e curtir a criatura. Um salve ao Bocão e a boa performance das quatro quilhas!

Para mais matérias sobre história do surf e da construção de pranchas ancestrais (ancient boards) acesse o blog: http://madeiraeagua.blogspot.com/

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