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Surf é um esporte individual… até você precisar de alguém!

Por trás de cada onda existe uma rede de pessoas que prepara, apoia e torna possível o momento em que o surfista está sozinho no mar.

12/Ago/2026 - Juliana Frare - Brasil

O surf sempre foi vendido como um encontro solitário entre o surfista e o mar. A imagem clássica é a do surfista remando sozinho em direção ao horizonte, carregando apenas a prancha, a coragem e a própria vontade. Para quem observa de fora, parece um dos esportes mais individuais que existem. Afinal, no momento em que a onda vem não há ninguém dividindo a responsabilidade e não há ninguém para tomar a decisão por você. Durante muito tempo, eu também enxerguei o surf dessa forma, mas os anos passaram e mudei completamente a minha percepção.

Elas me ensinaram que existe uma diferença enorme entre estar sozinho na onda e ter chegado até ela sozinho. A primeira situação é inevitável, a segunda, quase nunca é verdadeira. Quando uma série se aproxima, tudo acontece muito rápido, você decide se vai ou não vai. Nesse instante, ninguém pode surfar por você. Porém, aquele momento é apenas a ponta visível de uma estrutura muito maior, construída por inúmeras pessoas que quase nunca aparecem na foto final.

É curioso como o esporte, e principalmente as redes sociais, reforçam a ideia do herói individual. Celebramos quem está em cima da prancha e quem levanta o troféu., raramente pensamos em tudo o que aconteceu antes daquele instante. É como olhar apenas para o topo de um iceberg e ignorar a imensa massa que o sustenta debaixo d’água.

No surf de ondas grandes, essa parte invisível não é detalhe. Ela é fundamental. Um piloto não é apenas alguém conduzindo uma máquina, ele é uma extensão da segurança e, muitas vezes, a escolha da onda. Existe uma relação de confiança construída treino após treino, em que cada um precisa entender o tempo do outro, os limites do outro e até o silêncio do outro. Em condições extremas, essa sintonia pode fazer diferença entre uma situação controlada e uma emergência real.

E não é só a relação da dupla que existe. Muita gente imagina que o treinamento para ondas grandes acontece apenas no mar, mas, na verdade, ele envolve uma rede de profissionais e estratégias de segurança. O spotter, por exemplo, tem um papel fundamental: é ele quem observa o cenário de fora, acompanha a formação das ondas, identifica riscos, monitora o surfista e ajuda a tomar decisões rápidas em momentos críticos. Assim como a equipe de resgate, o spotter trabalha muitas vezes longe dos holofotes, mas sua presença pode ser determinante entre uma situação de risco e um retorno seguro para casa. No big surf, cada pessoa da equipe tem uma função, e a confiança entre todos é parte essencial para que o surfista possa enfrentar o seu maior desafio.

No surf de competição, essa necessidade de equipe também fica evidente, principalmente porque grande parte da evolução acontece longe do mar. O papel do treinador é fundamental: fortalecimento, mobilidade, condicionamento cardiovascular, apneia, recuperação, repetição de movimentos e preparação mental. O treinador é frequentemente a pessoa que enxerga falhas quando todos os outros só veem acertos. Ele trabalha nos detalhes que o público nunca percebe, mas que podem mudar completamente o desempenho do atleta.

E existe um aspecto ainda mais profundo: o treinador também ajuda a administrar expectativas. No esporte de alta performance, nem todo dia é um dia de evolução visível. Há períodos de adaptação, de estagnação aparente e de reconstrução. Ter alguém capaz de lembrar que o processo continua acontecendo mesmo quando os resultados ainda não apareceram faz uma diferença enorme.

Quem pratica esportes intensos sabe que o corpo não é uma máquina infinita. Ele envia sinais o tempo inteiro: dor, fadiga, limitação de movimento, inflamação. O fisioterapeuta não trabalha apenas para “consertar” uma lesão; ele ajuda a manter o atleta funcional, eficiente e preparado para continuar treinando sem transformar pequenos problemas em grandes interrupções.

Pra mim, isso se tornou ainda mais evidente depois dos desafios físicos que enfrento, uma lesão grave que me tirou do mar já há 3 meses, sem saber ainda quando voltar. Meu corpo começou a falhar, percebi que mesmo com muitos treinos e profissionais me acompanhando, são eles que conhecem aquilo que não conseguimos enxergar sozinhos. É como ajustar o casco de um barco antes que uma pequena fissura se transforme em uma entrada de água no meio da tempestade.

E existe também aquele surfista que já sabe surfar, que tem experiência, que conhece o mar, que talvez nunca tenha participado de uma competição e nem tenha essa intenção. O surfista que entra na água por paixão, prazer, liberdade ou simplesmente porque o mar faz parte da sua vida. Mas até esse surfista, que muitas vezes parece não precisar de ninguém, depende de uma rede que talvez nem perceba.

Ele precisa de um shaper que compreenda seu estilo, seu nível, seu corpo e o tipo de onda que gosta de surfar para construir uma prancha que potencialize sua experiência. Precisa de quem cuide das quilhas, da manutenção e dos equipamentos que fazem parte da sua relação com o mar. Precisa de professores e surfistas mais experientes que possam compartilhar conhecimento, não necessariamente para ensinar a ficar em pé, mas para aprimorar sua leitura de mar, seu posicionamento, sua técnica e suas escolhas.

Precisa de preparação física para sustentar o corpo ao longo dos anos, de profissionais que ajudem a prevenir ou tratar lesões, de conhecimento sobre respiração e apneia quando as condições exigem, e de pessoas que o ajudem a compreender que experiência não significa ausência de risco. Precisa também de outros surfistas: daqueles que estão no mesmo pico, que observam, alertam sobre uma série, compartilham informações sobre as condições e, em situações inesperadas, podem ser a diferença entre um problema e uma solução.

Porque, mesmo quando não existe uma medalha, um ranking ou uma equipe oficial, existe uma construção coletiva. Evoluir no surf não significa necessariamente competir ou buscar performance. Para muitos, evoluir é surfar melhor aos 40, 50 ou 60 anos, entender mais profundamente o oceano, fazer escolhas mais conscientes, respeitar seus limites e continuar encontrando prazer dentro da água. E essa trajetória também é construída por muitas mãos. No fim, todo surfista, em qualquer nível, carrega consigo um pouco de cada pessoa que um dia ensinou, preparou, orientou, construiu, cuidou ou simplesmente compartilhou uma onda.

Mas talvez a equipe mais invisível de todas seja a família. Enquanto o atleta aparece no mar, alguém está organizando a rotina, cuidando das crianças, administrando preocupações e convivendo com a ansiedade que acompanha quem ama alguém que enfrenta o oceano em condições desafiadoras. A família participa da jornada mesmo sem vestir lycra de competição ou entrar na água.

Como mãe, aprendi isso de uma maneira muito intensa. Cada viagem, cada treino, cada campeonato exige uma rede de apoio emocional e prática, existe uma logística afetiva que ninguém vê e que, muitas vezes, é justamente ela que permite que você esteja no mar com a mente minimamente focada. E existem também os amigos, os companheiros, maridos, namorados, namoradas e esposas, pessoas que muitas vezes estão fora da água, mas fazem parte de tudo o que acontece antes e depois dela. São eles que entendem as ausências, apoiam as escolhas, ajudam a lidar com os medos, esperam na areia, acompanham as previsões, vibram com cada conquista e, muitas vezes, são os primeiros a perceber quando é hora de respeitar um limite. No surf, essa rede afetiva também é parte da segurança.

O mais interessante é que essa reflexão vai muito além do surf. Vivemos em uma cultura que valoriza a independência como se ela fosse sinônimo de força absoluta. Desde cedo ouvimos frases como “vença sozinho”, “não dependa de ninguém” e “faça acontecer por conta própria”. O problema é que essa narrativa cria uma ilusão perigosa: a de que precisar de ajuda representa fraqueza. No mar, aprendi o contrário. Reconhecer a importância do outro não diminui o mérito da conquista, apenas torna a conquista mais verdadeira.

Pense em uma onda gigante. Ela não nasce sozinha. É resultado da combinação entre vento, pressão atmosférica, correntes, maré, profundidade do fundo do mar e tempo. Se um desses elementos muda, a onda muda junto. Com os atletas acontece algo parecido. O desempenho que aparece na superfície é consequência de múltiplas forças trabalhando ao mesmo tempo.

Há ainda um componente psicológico importante nessa discussão. Quando acreditamos que precisamos carregar tudo sozinhos, aumentamos o peso emocional de cada decisão. O erro deixa de ser apenas um erro e passa a parecer uma prova de incompetência. A dificuldade deixa de ser uma etapa do processo e se transforma em sinal de fracasso. Compartilhar responsabilidades, pedir orientação e aceitar apoio reduz essa pressão e permite que a energia seja direcionada para aquilo que realmente importa: evoluir.

O surf tem uma capacidade impressionante de lembrar que ninguém controla tudo. Você pode estudar a previsão, treinar durante meses, e ainda assim encontrar condições diferentes do esperado. O mar sempre terá uma parcela de imprevisibilidade. Aceitar isso é, de certa forma, aceitar a própria condição humana. E talvez seja justamente essa consciência que aproxima as pessoas.

Quando entendemos que não somos invencíveis, passamos a valorizar mais quem está ao nosso lado. O piloto deixa de ser apenas um apoio técnico e se torna um parceiro de confiança. O treinador deixa de ser apenas alguém cobrando desempenho e se torna parte da construção da sua evolução. A família deixa de ser “quem ficou em casa” e passa a ser parte ativa da conquista.

Muitas vezes, vemos apenas o momento em que alguém entra em uma onda perfeita. Mas aquela imagem começou muito antes: nos dias em que o treino não rendeu, nas sessões de fortalecimento repetitivas, nas consultas de recuperação, nas conversas difíceis, nos ajustes de equipamento, nas madrugadas de viagem e nas pessoas que disseram “continua” quando a vontade era parar.

Isso não significa que o mérito individual desapareça, pelo contrário, a coragem continua sendo individual, a decisão continua sendo individual, o que muda é a compreensão de que a preparação para esse momento é coletiva. Quanto mais tempo passa, mais percebo que o verdadeiro surfista não é aquele que finge não precisar de ninguém. É aquele que sabe exatamente quem faz parte do seu caminho e reconhece essa contribuição sem medo de parecer menos forte. Entrar sozinho em uma onda sabendo que muitas pessoas ajudaram você a chegar até ali não diminui a experiência. Na verdade, amplia o significado dela.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru.