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Saúde mental no surf: terapia ou fuga?

Uma reflexão sobre os limites entre usar o surf como cuidado emocional e transformar o mar em mecanismo de fuga.

27/Abr/2026 - Juliana Frare

A associação entre surf e saúde mental é quase que automático, existe um imaginário coletivo que posiciona o mar como um espaço de cura, equilíbrio e reconexão, como se a simples entrada na água fosse suficiente para reorganizar aquilo que está desorganizado internamente. Essa narrativa não surge por acaso. Há fundamentos reais que sustentam essa percepção, inclusive dentro da psicologia.

O contato com ambientes naturais, especialmente com a água, está diretamente relacionado à redução de níveis de estresse, à regulação do sistema nervoso e à melhora de estados emocionais. A chamada blue mind theory, por exemplo, propõe que a proximidade com a água induz estados mentais mais calmos e focados, diminuindo a hiperatividade cognitiva típica de contextos urbanos. Do ponto de vista neurobiológico, práticas como o surf ativam circuitos ligados ao prazer, à atenção plena e à liberação de neurotransmissores como dopamina e serotonina.

Mas é justamente aqui que começa o risco de simplificação.

Porque transformar esses efeitos em uma promessa implícita de cura pode distorcer a forma como o surf é vivido e, principalmente, a função que ele passa a ocupar na vida de quem pratica.

Na psicologia, existe uma diferença fundamental entre regulação emocional e evitação emocional. Regular emoções implica reconhecer, sustentar e elaborar experiências internas, mesmo quando desconfortáveis. Evitar emoções, por outro lado, significa criar estratégias muitas vezes inconscientes para não entrar em contato com aquilo que gera dor, ansiedade ou conflito.

O problema é que, externamente, essas duas coisas podem parecer iguais, e o surf transita exatamente nesse território. Quando o ele atua como uma forma de regulação emocional, ele não funciona como um escape imediato, mas como um espaço de experiência. O mar não elimina o desconforto; ele frequentemente o intensifica. A imprevisibilidade das ondas, a exposição ao risco, a ausência de controle e a necessidade de presença constante colocam o indivíduo em contato direto com estados internos primários, como medo, insegurança e frustração.

Dentro de abordagens como a terapia cognitivo-comportamental e a psicologia experiencial, esse tipo de exposição tem um valor significativo. É o que se chama de exposição emocional: a possibilidade de entrar em contato com sensações difíceis sem recorrer à evitação. No surf, isso acontece de forma muito concreta. Não é possível negociar com a onda, adiar uma decisão ou evitar completamente o desconforto sem consequências.

Essa dinâmica pode fortalecer repertórios importantes, como tolerância à frustração, capacidade de adaptação e presença no momento. Em outras palavras, o surf pode sim funcionar como um ambiente facilitador de processos terapêuticos, mesmo que não substitua uma terapia formal.

No entanto, essa mesma estrutura pode ser utilizada de forma oposta.

Quando o surf passa a ser utilizado como estratégia de evitação, ele deixa de ser um espaço de contato e se torna um mecanismo de afastamento. A pessoa entra no mar para não pensar, para não sentir, para não lidar com conflitos que existem fora dali. Nesse caso, o alívio emocional não vem da elaboração, mas da suspensão temporária do problema. Esse tipo de funcionamento é conhecido, na psicologia, como evitação experiencial. Ele não é, necessariamente, consciente. Pelo contrário, muitas vezes é reforçado justamente porque traz alívio imediato. O problema é que, a longo prazo, tende a manter ou até intensificar os conflitos, já que impede o enfrentamento direto.

O que torna essa dinâmica ainda mais complexa no surf é o fato de que ela é socialmente validada. Diferente de outras formas de fuga, o surf é visto como saudável, positivo e até admirável. A frequência alta no mar, a dedicação intensa e a centralização da rotina em torno das condições são comportamentos não só aceitos, mas incentivados. Isso dificulta a percepção de quando a prática deixa de ser integradora e passa a ser compensatória.

O surf é uma construção de identidade. Para muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem o surf de forma mais intensa, a prática deixa de ser apenas uma atividade e passa a ocupar um lugar central na definição de quem se é. Esse processo, embora natural, pode gerar uma identificação excessiva. Quando a identidade fica muito restrita a um único eixo, qualquer ameaça a esse eixo como lesões, períodos sem onda ou mudanças na rotina, pode gerar instabilidade emocional significativa. Não se trata apenas de ficar sem surfar, mas de perder, ainda que temporariamente, uma referência de si mesmo.

E talvez seja justamente aí que mora um ponto mais incômodo, que pouca gente gosta de encarar com honestidade: quando o acesso ao mar desaparece, o que realmente se desorganiza não é só a rotina, mas a própria sensação de identidade. Existe uma dependência silenciosa que se constrói quando o surf deixa de ser parte da vida e passa a ser o eixo que sustenta quem você acredita ser. E, nesse contexto, vale um questionamento mais direto: Quando você fica sem surfar e se perde… talvez o surf nunca tenha te encontrado de verdade.… ou será que ele só ocupava o espaço de algo que nunca foi realmente vivido? Ser surfista hoje é bonito, mas até que ponto sua identidade é real quando não está dentro do mar?

Além disso, o surf contemporâneo adiciona uma camada que não pode ser ignorada: a exposição constante. A presença das redes sociais e a transformação da prática em conteúdo alteram a forma como a experiência é construída. O surf deixa de ser apenas vivido e passa a ser também performado. Esse fenômeno se relaciona com a ideia de auto apresentação e validação externa. O indivíduo não está apenas experienciando o momento, mas também antecipando como ele será percebido. Isso pode gerar um estado de autoconsciência elevado, onde a atenção deixa de estar integralmente na experiência e passa a ser dividida com a própria imagem. Essa divisão tem impacto direto na qualidade da presença e, consequentemente, na função emocional da prática. O que poderia ser um espaço de conexão pode se transformar em mais uma fonte de pressão, comparação, autoexigência e até a depressão.

No meu caso, essa discussão não pode ser separada da maternidade. Ser mãe e, ao mesmo tempo, se colocar em contextos de risco, como o surf de ondas grandes, exige uma elaboração emocional constante. Não se trata apenas de gerenciar medo ou ansiedade individuais, mas de sustentar escolhas que reverberam para além de mim.

E isso é sobre ambivalência como a capacidade de sustentar sentimentos opostos simultaneamente. E talvez esse seja um dos pontos mais presentes nessa experiência. Existe, ao mesmo tempo, o desejo de expansão, de potência, de enfrentamento, e a responsabilidade, o cuidado e, inevitavelmente, a culpa. O surf, nesse contexto, não resolve essa ambivalência. Ele expõe.

Em alguns dias, ele organiza. Em outros, tensiona ainda mais. Há momentos em que entrar no mar amplia a sensação de capacidade e autonomia. Em outros, evidencia limites e coloca em perspectiva o peso das decisões. E isso, embora desconfortável, é coerente com uma visão mais madura de saúde mental. Porque saúde mental não é ausência de conflito. É a capacidade de sustentar, elaborar e integrar esses conflitos sem colapsar diante deles.

Talvez seja justamente por isso que a pergunta “o surf é terapia ou fuga?” não tenha uma resposta fixa. Ela não depende da prática em si, mas da relação estabelecida com ela. O mesmo mar que favorece presença pode sustentar evitação. A mesma onda que exige enfrentamento pode ser usada como distração. A mesma rotina que organiza pode, em outro momento, limitar.

O ponto central não está no surf, mas no nível de consciência que se tem sobre o próprio funcionamento, mas na capacidade de perceber os próprios padrões, entender suas motivações e reconhecer suas consequências. Sem esse nível de percepção, qualquer prática por mais saudável que seja em teoria pode assumir funções que não necessariamente contribuem para o desenvolvimento emocional. Isso não diminui o valor do surf. Pelo contrário. Retira dele um peso que nunca foi dele carregar: o de resolver tudo.

O surf pode ser uma ferramenta extremamente potente dentro de um processo de cuidado com a saúde mental. Pode favorecer presença, ampliar repertórios emocionais, fortalecer a relação com o corpo e com o ambiente. Mas ele não substitui o enfrentamento direto, não elimina conflitos estruturais e não sustenta, sozinho, o que precisa ser construído em outras áreas da vida.

Quando essa distinção se torna clara, a relação com o mar muda. Ela deixa de ser baseada em expectativa e passa a ser baseada em realidade. O surf continua sendo importante, talvez até mais, mas deixa de ocupar um lugar absoluto. E, paradoxalmente, é nesse ponto que ele se aproxima mais do que muitas vezes se busca nele. Não como fuga. Mas como espaço de verdade.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru