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Por uma onda

Ansiedade, performance e o que real conecta o surf de competição, freesurf e a busca pela onda perfeita.

20/Mai/2026 - Juliana Frare - Brasil

Ondas grandes, estrutura montada e alguns dos melhores big riders do Brasil e do mundo conectados ali, dividindo o mesmo mar, a mesma leitura e a mesma expectativa. Dia 04 de maio, Praia do Cardoso, Farol de Santa Marta, o meu mais esperado campeonato, CBSurf Big Wave Mormaii.

Juliana Frare durante o CBSurf Big Wave Mormaii 2026.

Uma energia difícil de explicar para quem observa apenas da areia. Durante algumas horas, toda a atenção se concentra naquele encontro entre atletas, oceano, performance e tomada de decisão. Mas o curioso é que, no surf, a experiência raramente termina junto com a buzina terminando a bateria. O campeonato acaba, o mar retorna ao seu ritmo habitual, a estrutura começa a ser desmontada e o resultado encontra o seu lugar inevitável dentro do evento. Ainda assim, algo permanece em movimento. Algumas perguntas continuam abertas, não necessariamente sobre notas ou classificação, mas sobre tudo aquilo que acontece antes, durante e depois de entrar na água.

Talvez porque o surf tenha essa característica particular de continuar acontecendo dentro da gente mesmo quando já saímos da água. Quando se observa uma competição de fora, o olhar normalmente se fixa na parte mais visível da experiência: quem venceu, quem avançou, quem performou melhor ou quem ficou pelo caminho. O problema é que no surf competitivo, na verdade no surf como um todo, raramente pode ser compreendido apenas pelo resultado da bateria.

Existe uma matemática invisível para entrar em um campeonato. Ela não é feita apenas de notas, ranking ou performance. Envolve deslocamento, investimento financeiro, planejamento, preparação física, adaptação de rotina, treino e uma quantidade considerável de energia emocional. Muito antes da bateria começar, o surfista já está administrando expectativa, logística e responsabilidade pessoal. Em esportes realizados em ambientes controlados, grande parte da energia pode ser direcionada exclusivamente para a execução técnica. No surf, o cenário é diferente. O mar permanece sendo uma variável viva e imprevisível.

Competir, portanto, não é apenas executar. É adaptar. Direção do swell, vento, maré, formação da onda e janela de oportunidade interferem diretamente na experiência. O surfista não compete apenas contra adversários ou contra seus próprios limites técnicos; ele interage continuamente com um sistema dinâmico que exige leitura permanente. Essa característica produz um tipo específico de pressão psicológica. Antes de entrar na água, ansiedade e adrenalina costumam aparecer de forma quase inevitável. Em muitos casos, essas respostas são interpretadas como sinais de insegurança ou descontrole emocional. A psicologia do esporte, no entanto, oferece outra leitura.

Ansiedade não é necessariamente um problema. Em níveis moderados, ela faz parte do mecanismo adaptativo que prepara o corpo para situações percebidas como relevantes ou imprevisíveis. O aumento da frequência cardíaca, a intensificação do foco e a ativação fisiológica associada à adrenalina não surgem apenas como resposta ao perigo, mas também como preparação para desempenho.

No surf, essa distinção é importante. O cérebro entende o ambiente oceânico, especialmente em condições desafiadoras, como um contexto de alta relevância perceptiva. Há necessidade de antecipação, leitura espacial e tomada rápida de decisão. Isso ajuda a explicar por que muitos surfistas descrevem sensações físicas intensas antes de uma sessão importante ou de uma bateria decisiva. O corpo está entrando em estado de atenção ampliada. O mesmo acontece com o medo.

Dentro da cultura do surf ainda existe certa romantização da coragem, como se surfistas experientes ou atletas acostumados a condições pesadas fossem pessoas que deixaram de sentir medo. A realidade costuma ser mais complexa. O medo raramente desaparece; o que muda é a relação construída com ele ao longo dos anos de experiência, treinamento e exposição ao oceano.

Entre big riders, essa percepção aparece de forma recorrente. Carlos Burle costuma defender que longevidade no surf pesado depende menos de impulsos heroicos e mais de clareza mental, preparo emocional e respeito pelas condições. Garrett McNamara, um dos nomes mais associados às ondas gigantes, descreve uma mudança semelhante ao longo da carreira: o que no início podia ser vivido como descarga de adrenalina passa, com o tempo, a se relacionar mais com conforto no oceano, presença e conexão com o ambiente. Do ponto de vista da psicologia do esporte, essas experiências convergem para uma compreensão semelhante. O medo, em modalidades de alto risco e ambiente aberto, funciona como mecanismo adaptativo. Ele aumenta vigilância, aprimora percepção de ameaça e influencia decisões relacionadas a posicionamento, timing e gestão de risco. O problema raramente está em sentir medo; muitas vezes, o problema seria não reconhecê-lo.

Talvez por isso exista, entre surfistas, uma diferença importante de linguagem. Fala-se menos em “dominar” o mar e mais em aprender, respeitar e negociar com sua energia. O oceano continua sendo maior do que qualquer atleta, e talvez a maturidade no surf esteja justamente nessa compreensão: coragem não como negação do medo, mas como capacidade de continuar tomando decisões lúcidas mesmo na presença dele. Essa lógica não pertence apenas ao big surf. Existe uma tendência de reduzir técnica àquilo que é imediatamente visível, manobras, potência, linha ou repertório. Embora tudo isso seja importante, a técnica no surf começa antes do movimento. Ela envolve observação, posicionamento, timing e interpretação do ambiente.

No surf competitivo, essa demanda se intensifica porque a leitura precisa coexistir com pressão temporal e julgamento externo. O atleta administra estratégia, seleção de ondas, energia emocional e adaptação constante às condições, sabendo que o resultado será comparado e avaliado publicamente. Existe uma carga cognitiva importante envolvida nesse processo. Talvez por isso o resultado final carregue tanto peso emocional.

Juliana Frare durante o CBSurf Big Wave Mormaii 2026.

Quem compete sabe que uma bateria não representa apenas alguns minutos de surf. Ela concentra semanas, meses e às vezes anos de preparação e expectativa. Quando o desfecho não acontece como imaginado, existe frustração real, e ela não deveria ser tratada como fragilidade. O cérebro humano cria antecipações, constrói cenários e investe significado em objetivos futuros. Quando existe ruptura entre expectativa e resultado, ocorre um período de reorganização emocional. A tristeza que aparece após um campeonato possui uma lógica compreensível. Mas ela passa. O que tende a permanecer é outra coisa.

Permanece o caminho percorrido, a experiência construída, o amadurecimento técnico e emocional. Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre enxergar o surf apenas como performance ou compreendê-lo como processo. O resultado importa, mas dificilmente encerra a experiência. Foi justamente essa percepção que me levou a uma reflexão maior: a estrutura psicológica que aparece no campeonato não pertence apenas ao ambiente competitivo. Ela atravessa todo o universo do surf.

Existe uma ideia relativamente comum de que ansiedade, pressão ou grande envolvimento emocional fazem parte exclusivamente da vida de atletas profissionais. Mas basta observar qualquer surfista para perceber que isso não é verdade. O freesurfer vive isso. O surfista que trabalha durante a semana esperando o próximo swell também. Quem organiza uma surf trip talvez conheça esse processo profundamente. Porque, em essência, o surf mobiliza vidas. Planejar uma viagem em busca de ondas envolve muito mais do que deslocamento geográfico. Existe monitoramento de previsão, organização financeira, negociação de agenda e construção progressiva de expectativa. O curioso é que toda essa movimentação acontece em torno de uma experiência que permanece incerta. Não existe garantia, o mar pode mudar, as condições podem não alinhar, e ainda assim, as pessoas continuam indo.

À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Por que mover tanto por algo tão efêmero? Talvez porque a relação humana com o surf não seja orientada apenas pela lógica da recompensa objetiva. A psicologia comportamental mostra que boa parte das nossas escolhas é guiada pela busca de experiências percebidas como significativas, e não apenas por ganhos materiais ou resultados mensuráveis. O surf pertence profundamente a esse território.

Uma onda possui uma característica singular: ela não pode ser acumulada, guardada ou reproduzida exatamente da mesma forma. Sua existência é transitória e, paradoxalmente, isso aumenta seu valor emocional. A neurociência oferece uma pista interessante sobre esse fenômeno. Sistemas ligados à dopamina, frequentemente associados ao prazer, operam fortemente através da antecipação e da motivação. O cérebro responde não apenas ao momento da recompensa, mas à possibilidade dela acontecer.

Isso ajuda a entender por que a experiência do surf começa muito antes da remada. Ela começa na previsão, na observação do vento, na conversa sobre swell, no planejamento da viagem e naquela expectativa silenciosa de que determinadas condições possam se alinhar. Existe prazer psicológico também na espera. Mas reduzir essa relação apenas à neuroquímica seria insuficiente. O surf produz algo que talvez explique sua permanência emocional ao longo da vida: ele reorganiza atenção.

Vivemos em uma cultura marcada por excesso de informação, produtividade constante e múltiplas demandas simultâneas. Grande parte do cotidiano acontece dividida entre telas, obrigações e preocupações futuras. Durante uma onda, especialmente em condições que exigem respeito e leitura cuidadosa, existe pouco espaço para dispersão mental. O cérebro precisa priorizar informação relevante e responder ao presente. A teoria do flow, desenvolvida pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, descreve precisamente esse tipo de experiência. Estados de flow surgem quando desafio e habilidade encontram equilíbrio suficiente para produzir concentração profunda e envolvimento total na atividade realizada. O surf oferece esse ambiente de forma particularmente intensa. Não porque elimina problemas ou funciona como fuga automática, mas porque exige integração entre corpo, percepção e decisão. Talvez por isso muitos surfistas descrevam a água como um espaço de clareza. Existe uma diferença importante entre escapar da realidade e experimentar um contexto onde a atenção se reorganiza de maneira mais íntegra.

E talvez seja exatamente aqui que competição, freesurf e surf trips finalmente se encontram. Apesar das diferenças de objetivo, nível técnico ou contexto, todos compartilham uma estrutura psicológica semelhante: a disposição de se colocar diante de um ambiente imprevisível que exige respeito, adaptação e presença. O competidor busca performance, o freesurfer pode buscar linha, estética ou conexão e o surfista de fim de semana talvez procure aquele momento capaz de reorganizar a semana inteira. As motivações mudam, mas existe um eixo comum. No fundo, todos se relacionam com o mesmo processo: a tentativa de participar de algo que nunca pode ser completamente controlado ou repetido. Uma experiência construída entre expectativa, risco, adaptação e presença.

Talvez seja essa combinação que continue nos levando de volta ao mar. Não apenas pela onda perfeita em si, mas pela relação que ela nos obriga a construir com o imprevisível e, consequentemente, conosco mesmos.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru