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O ego é o maior perigo no surf, não o mar

Mais do que a série, a corrente ou o tamanho das ondas, muitas vezes é a relação do surfista com o próprio ego que coloca em risco sua leitura, suas decisões e sua segurança dentro d’água.

31/Mar/2026 - Juliana Frare

Existe uma ideia quase automática quando a gente fala de surf, de que o perigo está no mar, no tamanho da série, na força da bancada, na corrente, como se tudo o que pudesse dar errado estivesse do lado de fora, como se o risco fosse sempre algo externo, visível, mensurável. Mas, com o tempo e algumas experiências, você começa a entender que nem sempre é assim. O mar é intenso, imprevisível, muitas vezes perigoso, mas não mente nem te convence de nada. Quem faz isso é outra coisa, muito mais silenciosa e muito mais difícil de perceber. O seu próprio EGO.

E o mais perigoso do ego não é quando ele aparece de forma óbvia, quando alguém quer chamar atenção ou disputar onda de forma agressiva. O mais perigoso é quando ele atua dentro de você, de um jeito sutil, quase racional, te convencendo de que você está pronto quando não está, de que você aguenta mais do que realmente aguenta, de que você precisa ir, não porque faz sentido, mas porque não ir significaria, de alguma forma, perder. Existe um conceito comportamental, estudado por Daniel Kahneman, que fala sobre o excesso de confiança, uma tendência humana de superestimar a própria capacidade e subestimar riscos, principalmente em ambientes que a gente acredita conhecer. No surf, isso aparece o tempo inteiro, porque o mar pode até ser o mesmo pico, mas nunca é o mesmo mar, e ainda assim a gente entra com a sensação de familiaridade, como se já tivesse entendido tudo, como se o corpo e a mente estivessem sempre alinhados, quando, na verdade, não estão.

E é aí que o ego sobre si mesmo começa a se tornar perigoso, porque ele distorce a leitura mais importante que você pode fazer: a leitura de você mesmo. Cansaço, distração, ansiedade, pressão interna: tudo isso vai ficando em segundo plano quando há uma necessidade, mesmo que inconsciente, de se provar. E nem sempre essa prova é para os outros. Muitas vezes ela é totalmente interna. É você contra a imagem que criou de si mesmo. Na psicologia, Sigmund Freud descreve o ego como o mediador entre o desejo e a realidade, a parte que deveria equilibrar o que você quer com o que de fato é possível naquele momento.

Já teve dias em que eu entrei no mar cansada, com a cabeça longe, preocupada com coisas da vida, sem estar completamente presente, mas, ainda assim, fui. Não porque era o melhor momento, mas porque, de alguma forma, não ir parecia errado. E é curioso como, nesses dias, o corpo responde diferente, o tempo de reação muda, a respiração não encaixa do mesmo jeito e qualquer erro pequeno pode custar caro. O mar continua sendo o mar, mas você já não é a mesma pessoa que deveria estar ali.

Sabe o que realmente acontece? O ego não aparece dizendo “você quer aparecer”. Ele aparece dizendo “vai dar certo”. Ele aparece dizendo “você já fez isso antes”. Ele aparece dizendo “não é nada demais”. E quando você percebe, a decisão já foi tomada.

Esse tipo de distorção também é explicado por um fenômeno chamado Dunning-Kruger effect, que mostra como pessoas tendem a acreditar que sabem mais do que realmente sabem, enquanto quem tem mais experiência, muitas vezes, é justamente quem mais respeita os limites. No surf isso é muito claro. Quem já passou por situações mais pesadas tende a ser mais cauteloso, não por medo, mas por consciência. Já quem ainda não viveu certas consequências pode confundir confiança com preparo.

E isso conecta diretamente a outra ideia importante, trazida por Albert Bandura, sobre a autoeficácia, que é a crença na própria capacidade de executar algo. A confiança é essencial no surf. Sem ela, você não entra, não rema, não se posiciona. Mas existe uma linha muito fina entre confiança real e confiança ilusória, e quando essa linha é atravessada, o que parecia segurança vira exposição. A confiança real, aquela que sustenta boas decisões, está conectada à presença, ao preparo e à leitura honesta do contexto. Já a confiança ilusória está muito mais ligada à necessidade de manter uma narrativa interna de capacidade constante. E isso cansa. Porque você começa a se cobrar um nível de performance que nem sempre condiz com o estado em que você está.

Só que o ego não para em você. Ele se projeta nos outros o tempo inteiro. No mar, mesmo quando ninguém fala nada, existe uma dinâmica silenciosa de comparação, de posicionamento, de leitura de quem está pegando mais onda, de quem está mais confortável, de quem está sendo observado. E isso muda o comportamento. Você começa a remar em ondas que talvez não remaria se estivesse sozinho. Você se posiciona de forma mais agressiva. Você insiste mais. Não necessariamente porque aquela é a melhor escolha, mas porque existe uma relação invisível sendo construída ali.

E quando isso escala, entra em um campo mais coletivo, que envolve as relações humanas dentro do surf. Localismo, territorialismo, falta de empatia, agressividade desproporcional, tudo isso também é alimentado por ego. A necessidade de afirmar espaço, de manter uma identidade, de impor respeito, muitas vezes vem de um lugar muito mais interno do que externo. Como descreve o sociólogo Erving Goffman, a gente vive constantemente construindo versões de nós mesmos para os outros, como se estivesse em um palco. E o surf, principalmente hoje, virou um dos palcos mais intensos que existem.

Quando a gente fala de localismo, existe uma camada direta de ego ligada à superioridade, onde alguns se colocam como donos do espaço e do direito de definir quem pertence ali. Muitas vezes isso vem disfarçado de respeito ou tradição, mas no fundo revela uma necessidade de afirmação, e o ego reage diminuindo o outro para sustentar a própria posição. Mas existe também um outro lado do ego dentro do localismo que é mais difícil de admitir, porque ele não é necessariamente negativo. Em muitos casos, esse senso de pertencimento e até de proteção do espaço vem de uma conexão real com o lugar, com a história daquele pico, com o tempo investido ali dentro. Nesse caso, o ego não está só inflando identidade, mas organizando, criando referência e responsabilidade. O limite está entre proteger e excluir quando há consciência, o ego sustenta cultura; quando não, vira só imposição e hierarquia vazia.

Essa dinâmica costuma ser mais emocional, mais reativa, mais direta. Existe uma intensidade maior nas relações, uma necessidade mais visível de afirmação, seja pelo posicionamento, pela postura ou até pela forma como os conflitos aparecem. O ego se manifesta de maneira diferente. Ele pode ser mais silencioso, mais contido, mas não menos presente. A disputa existe, a hierarquia existe, a necessidade de reconhecimento também existe, só que muitas vezes disfarçada em uma aparência de organização ou respeito que, na prática, ainda carrega a mesma base: a necessidade de ocupar um lugar.

Porque além do mar e das pessoas ao redor, existe um terceiro elemento que potencializa tudo isso: a exposição. A câmera, o registro, o que vai ser mostrado depois. O surf que vira conteúdo. E isso muda completamente a experiência. Você não surfa só a onda, você surfa também a possibilidade daquela onda virar imagem, virar validação, virar narrativa.

E talvez a parte mais incômoda de admitir seja que, em muitos casos, a gente não está mais tomando decisão pelo mar, mas pela possibilidade de validação que vem depois dele, como se cada onda carregasse um potencial de aprovação, de reconhecimento, de construção de imagem. E aí o surf começa a mudar de lugar sem que a gente perceba, porque ele deixa de ser uma experiência íntima e passa a ser uma performance estratégica, onde até o risco pode ser romantizado se ele render uma boa imagem. E isso é perigoso! Porque quando você começa a escolher onda pensando em como ela vai parecer, e não em como ela realmente está, você já não está mais presente no surf.

E o mais desconfortável é que ninguém gosta de se ver nesse lugar, porque é muito mais fácil acreditar que está ali pela essência, pela conexão, pela verdade do momento, quando na prática muitas decisões já estão atravessadas por um olhar externo imaginário, como se sempre tivesse alguém assistindo, julgando, validando. E mesmo quando não tem câmera, ela existe na cabeça. Isso muda postura, muda timing, muda limite. Porque você não quer só surfar bem, você quer parecer alguém que surfa bem. E existe uma diferença grande entre essas duas coisas. Uma vem de dentro, da leitura, da presença, da consistência. A outra depende de recorte, de ângulo, de momento. E quando essa linha se embaralha, o ego começa a tomar decisões que não são sobre o mar, nem sobre você, mas sobre uma versão editada da realidade que precisa ser sustentada. E sustentar isso, dentro de um ambiente que não aceita controle nenhum, é uma das formas mais sutis e mais perigosas de se desconectar do que realmente importa ali dentro.

Mas no meio de tudo isso, o ponto mais delicado continua sendo o mesmo: a relação que você tem com você mesmo. Porque é ali que todas as decisões começam, antes de qualquer onda, antes de qualquer remada, antes de qualquer risco real, existe uma conversa interna acontecendo. E essa conversa nem sempre é honesta.

Mas o mais IMPORTANTE, não carregue o ego como ruim. Ele faz parte. Ele te impulsiona, te dá coragem, te coloca em movimento, ele ajuda na sua evolução. O problema é quando ele assume o controle da narrativa e começa a tomar decisões no seu lugar. Porque diferente do mar, que mostra exatamente o que é, o ego se disfarça. Ele se adapta. Ele justifica. E no surf, principalmente em condições mais exigentes, não existe espaço para auto engano.

No final, não é sobre ser destemido. Não é sobre provar nada. Não é sobre performar para alguém. É sobre conseguir ler com clareza o que está acontecendo fora e principalmente dentro de você. E conseguir tomar decisões a partir disso.

Porque o mar pode até ser o cenário do risco. Mas quase sempre, o ponto de partida está em você. E é ali que mora o maior perigo.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru