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No surfe, ninguém esconde quem realmente é

Como o oceano muda nosso cérebro e por que o surfe revela tanto sobre as relações humanas.

11/Mar/2026 - Juliana Frare

Quem surfa sabe: nem todo dia no mar é igual. Às vezes o mar está clássico, o vento perfeito, as ondas alinhadas... e mesmo assim algo não encaixa. Outras vezes o mar está mexido, difícil, cheio... e ainda assim você sai da água leve, feliz, em paz. Isso acontece porque o surf nunca foi apenas sobre ondas. Cada surfista entra no mar carregando muito mais do que uma prancha.

Levamos para dentro d’água nosso cansaço, nossas preocupações, nossas responsabilidades, nossos medos, nossas vitórias silenciosas e tudo aquilo que ficou acumulado durante o dia. Levamos nossa energia para água e muitas vezes ela define o tipo de experiência que vamos ter.

Como mulher e mãe, entro no mar de formas diferentes: às vezes carregada de stress, cansada ou desanimada; outras vezes mais leve, tranquila, sabendo que minhas tarefas e responsabilidades do dia já foram cumpridas. Cada sessão reflete esse estado, e o surf acaba sendo um espelho do que levo comigo para a água.

Nos últimos anos, estudos nas áreas de Psicologia e Neurociência começaram a explicar algo que surfistas sempre sentiram intuitivamente: o contato com o mar tem um efeito direto no nosso cérebro e no nosso comportamento. Um dos pesquisadores que mais se dedicou a estudar essa relação é o biólogo e pesquisador americano Wallace J. Nichols, autor do conceito conhecido como Blue Mind. Segundo Nichols, quando estamos no mar nosso cérebro entra em um estado mental específico, caracterizado por maior sensação de calma, foco e bem-estar.

O ritmo das ondas e o movimento constante da água ajudam a reduzir níveis de estresse e ansiedade, enquanto substâncias associadas ao bem estar, como dopamina e serotonina, são liberadas no organismo. Em outras palavras: o oceano ajuda a regular o nosso sistema nervoso.

Talvez por isso tantas vezes a gente entre no mar carregado... e saia mais leve.

Cada surfista entra no mar carregando muito mais do que uma prancha. Levamos também tudo aquilo que aconteceu antes de entrar na água. Mas existe algo ainda mais interessante acontecendo ali dentro, quando estamos no mar, não estamos apenas em contato com o oceano. Estamos também em contato com a energia de outras pessoas. De certa forma, o surf ainda preserva algo que se perdeu em muitos lugares da vida moderna: a socialização real. Não tem internet. Não tem redes sociais. Não tem notificações.

Pesquisas mostram que interações humanas presenciais ativam áreas do cérebro ligadas à empatia, à confiança e à conexão emocional de maneira muito mais intensa do que interações digitais, talvez por isso, mesmo entre pessoas que nunca se viram antes, o ambiente do mar muitas vezes cria uma sensação imediata de conexão. Ali dentro você divide o pico com pessoas que nunca viu antes, algumas você nunca mais verá, algumas se tornam amigos para muitos outros surfes ou outras permanecem apenas naquele pequeno ritual silencioso: um olhar, um aceno de cabeça ou um simples “bom dia”. Porque todos ali estão vivendo algo parecido: a expectativa da série, a frustração de perder uma onda ou alegria quase infantil de pegar uma boa.

Ouso pensar que existe uma espécie de linguagem silenciosa do surf, ás vezes alguém do lado comenta apenas: “Tá demorando a série hoje...”, e essa frase simples cria uma conexão curiosa com alguém que você nunca viu antes.

A ciência também tem algumas explicações interessantes para isso, pesquisas apontam que o cérebro humano possui um sistema conhecido como neurônios-espelho, que são estruturas responsáveis por reconhecer e refletir emoções e intenções de outras pessoas. Eles são ativados quando observamos alguém vivendo uma experiência semelhante à nossa. Por isso, quando vemos outro surfista vibrando depois de uma boa onda ou simplesmente esperando a próxima onda, nosso cérebro reconhece aquele estado emocional, mesmo sem palavras, é uma forma silenciosa de empatia. Mas é exatamente nesse mesmo espaço que também surgem alguns dos conflitos mais

intensos dentro da cultura do surf.

E isso levanta uma pergunta importante: Por que tantas vezes entramos em conflito com pessoas que nem sequer conhecemos?

E conto pra vocês que parte desse comportamento é simples: ondas são limitadas. Limitadas? Sim! Às vezes a série demora minutos para chegar, ás vezes ela vem com apenas algumas boas ondas. E, ao mesmo tempo, dezenas de surfistas estão ali remando para o mesmo pico. Essa dinâmica naturalmente cria expectativa, frustração e competição.

Na Psicologia esse tipo de comportamento foi estudado pelo psicólogo social Muzafer Sherif, que demonstrou como grupos entram em conflito quando precisam disputar recursos limitados, algo que aparece de forma intermitente e imprevisível. No surf, esse recurso é a onda. Além disso, estudos sobre comportamento humano também mostram que tendemos a desenvolver uma sensação de territorialidade em relação a espaços que frequentamos com frequência. Pesquisadores como Desmond Morris observaram que, quando um ambiente se torna familiar ou parte da nossa rotina, nosso cérebro passa a tratá-lo quase como uma extensão do nosso próprio território. Talvez por isso

alguns picos, especialmente os mais conhecidos ou frequentados, acabem despertando sentimentos mais intensos de pertencimento e, às vezes, de defesa daquele espaço, o famoso localismo.

Mas no surf existe ainda algo a mais. O mar amplifica emoções, ali estamos expostos, atentos, esperando, observando. Nosso cérebro entra em um estado de foco elevado, no qual cada movimento parece maior do que realmente é: um drop errado, uma remada mais agressiva ou uma onda disputada. E, de repente, aquele espaço que deveria ser coletivo vira território.

Por isso as regras do surf nunca foram apenas regras. Elas são, na verdade, um código cultural de convivência, o respeito pela prioridade, o respeito pelo local, o respeito pelo outro surfista. Não apenas para organizar quem pega a onda, mas para preservar algo essencial: o equilíbrio dentro da água.

Curiosamente, quando o mar cresce, muitas vezes essa dinâmica muda. Em dias de ondas grandes, mar costuma ficar mais silencioso, mais atento. Não porque ali são surfistas profissionais, locais ou com mais fortes, mas porque quando o mar mostra sua força, todos ali compartilham algo muito profundo: a percepção real do risco. No universo do big surf isso fica ainda mais evidente. Ondas grandes exigem preparação, mais precisão na leitura do mar, e uma atenção constante ao que acontece ao redor. Nessas situações, o cérebro humano entra em um estado conhecido na neurociência como estado de alerta elevado, quando os sentidos ficam mais aguçados, a percepção do ambiente se amplia e a capacidade de reação aumenta. É um mecanismo biológico antigo, ligado à sobrevivência.

Ao mesmo tempo, pesquisas em Psicologia Evolutiva mostram que, diante de ambientes naturais intensos ou potencialmente perigosos, seres humanos tendem a desenvolver níveis maiores de atenção coletiva e percepção das pessoas ao redor, o cérebro passa a monitorar não apenas o ambiente, mas também quem está ali compartilhando aquele espaço. Talvez por isso o mar grande tenha uma atmosfera diferente.

Mas independente do estilo ou gostos de surfe de cada um, talvez seja por isso que, no fim, um dia de surf raramente termina apenas quando saímos da água. Ele termina quando conseguimos olhar para dentro e perceber tudo o que levamos para o mar e tudo o que deixamos ali. 

O surf tem essa capacidade curiosa de nos fazer encarar nossas próprias energias: o estresse, a ansiedade, a frustração, a alegria, a superação. Tudo acontece em um intervalo curto de tempo, dentro de uma única sessão. Talvez seja justamente essa intensidade emocional, concentrada em poucas horas, que torna o surf tão transformador. Porque no fim, depois de tantas ondas, encontros e emoções, a sensação que fica quase sempre é a mesma: entramos no mar uma pessoa e saímos dele com um entendimento e autoconhecimento maior sobre

nós mesmos.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru.