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Garota Surfista De Gaza Enfrenta Poluição E Preconceitos

Harriet Sherwood

Sabah Abu Ghanim, 12 anos, arrasta sua prancha pela água enquanto o sol poente ilumina o Mediterrâneo oriental. O vento aumentou um pouco, e ela espera que haja ondas, pelo menos o suficiente para poder pegar algumas.

"Sinto como se o mar pertencesse a mim", diz a surfista de Gaza. "Quando estou no mar, estou feliz."

Os 40 quilômetros de costa mediterrânea da Faixa de Gaza atraem uma população que tem poucas opções de entretenimento e sente a necessidade urgente de fugir do tédio da vida sob um bloqueio. Um grupo de surfistas --pequeno, mas crescente-- vem usando pranchas improvisadas diversas, além de algumas poucas enviadas por ativistas do surfe pelos fortemente controlados postos de travessia de Israel.

"Temos um problema para fazer os equipamentos chegar, mas esses caras tentam se virar da melhor maneira possível", comenta Mahfouz Kabariti. Presidente da Federação Palestina de Vela e Surfe. "As pessoas vivem sempre sofrendo com o cerco. Elas precisam de algum espaço para se sentirem normais. Isto daqui faz bem para sua saúde mental."

Sabah aprendeu com seu pai, que é salva-vidas, como usar a prancha de 22 anos de idade dele, que é compartilhada por amigos e familiares. A primeira vez, diz ela, "eu me coloquei nas mãos de Deus. Fiz minhas derradeiras preces. E peguei uma onda muito alta."

Hoje ela estuda na TV e na internet para melhorar sua técnica, e, por sua vez, ensina outras pessoas a surfar. "Quando minhas amigas me vêem surfando, elas ficam orgulhosas. Elas gostam e pedem que eu as ensine. Viram surfistas como eu. Bem, não exatamente como eu --não tão boas quanto eu."

As praias da Faixa de Gaza estão em um dos poucos trechos de litoral mediterrâneo a não ter construções. Não há turistas para ocupar os poucos hotéis de frente para o mar. Alguns poucos cafés nas praias --alguns administrados pelo Hamas-- atraem moradores locais fora do Ramadã.

Periclitantes torres de salva-vidas são postadas ao longo da praia em intervalos regulares, mas não há avisos que informem os banhistas sobre o perigo maior: o esgoto na água. Até 80 milhões de litros de esgotos são despejados na água todos os dias, provocando diarreia e problemas de pele nas pessoas que engolem a água.

As quatro usinas de tratamento de esgotos da Faixa de Gaza não dão conta da população crescente, segundo o Ewash, um consórcio de ONGs locais e internacionais. O bloqueio israelense impede a chegada a Gaza dos materiais necessários para a manutenção e modernização das usinas.

"As pessoas deveriam ser avisadas para que não nadem em pontos próximos aos canais de despejo de esgoto", diz Ghada Snunu, do Ewash. "Mas não é fácil mandar as pessoas pararem de nadar. A praia é o único lazer da maioria dos moradores de Gaza."

Sabah conta que, depois de adoecer, ela vem evitando os lugares mais contaminados. Mas a maioria das pessoas prefere correr o risco de adoecer a abrir mão de um de seus poucos prazeres. O pai de Sabah, Rajab Aby Ghanim, tem 37 anos e aprendeu a surfar sozinho. Ele se orgulha da habilidade de sua filha e pretende apresentar Saja, 8 anos, a irmã menor de Sabha, à alegria do surfe. Mas, diz ele: "Tenho muitos problemas pelo fato de minhas filhas surfarem. Muitas pessoas me criticam. Pedi a minhas duas filhas mais velhas que parassem, por causa da comunidade."

Sabah às vezes percebe que pessoas conservadoras em Gaza desaprovam o que ela faz. "Há uma diferença [entre meninas e meninos]. Quando estamos nadando no mar e homens nos vêem, eles ficam espantados e nos mandam sair."

"Quando eu ficar mais velha, minha sociedade não vai me deixar surfar. Isso é vergonhoso. Vou continuar a surfar até lá, mas depois vou ter que parar. Vou ficar triste."

Sabah conta que uma vez sua irmã de 16 anos foi à praia vê-la pegar ondas. "Eu a achei triste. Falei: 'Você está com vontade de voltar aos velhos tempos, quando podia nadar e surfar'. Ela disse 'eu queria que aqueles tempos voltassem'."

Sua mãe e suas tias às vezes vão à praia para nadar "quando não há ninguém por perto. Mas, se outras pessoas começam a chegar, elas saem da água e voltam para casa. Não queremos que fiquem falando de nós."

Por enquanto, pelo menos, a garota surfista de Gaza continua a pegar ondas. "As pessoas sentem orgulho de nós. Elas dizem 'é a primeira vez que vemos uma menina que sabe surfar'."

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