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"El Consigo Mesmo": a jornada do sonho de um menino que queria pedalar em busca de ondas

De Ilhéus rumo às pororocas da Amazônia, João Zugaib pedala milhares de quilômetros atrás de ondas perfeitas e descobre que as melhores histórias acontecem entre um pico e outro.

02/Jul/2026 - - Brasil

"El Consigo Mesmo" é o nome do projeto criado por João Zugaib para dar vida a um sonho de adolescência. O título carrega um duplo significado. O "consigo" pode ser um pronome reflexivo e designar estar consigo mesmo ou pode ser um verbo e designar conseguir mesmo. Ainda, pode ser um cacófato, entendido como um elo consigo mesmo que designa conseguir mesmo estar consigo. Enfim, tudo converge para a coragem de que é possível transformar um sonho aparentemente impossível em realidade.

Há pouco mais de seis meses, João colocou duas pranchas de surf na bicicleta e saiu de Ilhéus (BA) pedalando pelo litoral nordestino em busca de ondas. Desde o início, sabia que não se tratava apenas de um desafio esportivo. A jornada carregava um propósito de vida: experimentar a simplicidade material e a riqueza das conexões com pessoas e lugares.

Natural de Ilhéus e criado no bairro do Pontal, João cresceu numa época em que as ruas, as praias e as matas eram palco das descobertas da infância. Entre tantos esportes praticados, dois se transformaram em paixão e estilo de vida, o ciclismo e o surf.

No início dos anos 2000, a transformação de Itacaré em um destino internacional do surf despertou nele um fascínio que mudaria sua forma de enxergar o mundo. A ideia de percorrer de bicicleta o litoral sul da Bahia em busca das melhores ondas passou a fazer parte de suas aventuras de adolescente. Foi ali que nasceu um sonho que parecia distante, colocar as pranchas na bicicleta e sair pelo mundo em busca de ondas.

A vida, no entanto, tomou outros rumos. Em 2004, ingressou no curso de Fisioterapia e mudou-se para Salvador. Vieram o casamento, a paternidade e a carreira acadêmica. Tornou-se doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, desenvolvendo pesquisas na área de Neurofisiologia, e posteriormente atuou como professor universitário.

Durante esse período, ficou dez anos sem surfar e cerca de cinco anos sedentário. Tornou-se obeso e reconhece que negligenciou a própria saúde. Em contrapartida, adquiriu o lastro intelectual necessário para sustentar uma convicção que hoje guia sua caminhada: viver fora das convenções não significa viver de forma errada.

Em 2019, de volta a Ilhéus, iniciou um processo de reconexão consigo mesmo. Decidiu que a vida acadêmica não seria sua principal fonte de renda e passou a buscar equilíbrio entre os aspectos intelectuais, emocionais e orgânicos da vida.

Foi então que o antigo sonho voltou a pulsar.

Hoje, após pouco mais de mil quilômetros percorridos entre Ilhéus e Maracaípe (PE), a viagem já proporcionou experiências marcantes. Pelo caminho, João percorreu boa parte do litoral baiano, os litorais sergipano e alagoano até chegar ao sul de Pernambuco. Nesse trajeto, atravessou paisagens deslumbrantes, surfou ondas memoráveis e viveu experiências difíceis de descrever.

Em alguns lugares, porém, decidiu permanecer por mais tempo.

Foi assim na Praia do Forte (BA), na Praia do Francês (AL) e agora em Maracaípe (PE), onde encontrou ondas especiais e a oportunidade de viver intensamente o cotidiano das comunidades locais.

Ao longo da jornada, vem se consolidando justamente a ideia que o fez reunir coragem para partir. "De fato, estou vivendo um sonho. Um sonho de vida real. Não é uma vida encantada o tempo inteiro. Existem dificuldades, desafios e momentos de incerteza. Mas, no geral, o propósito continua se mantendo de uma forma quase mágica."

Apesar das ondas memoráveis e das paisagens impressionantes, João afirma que as conexões humanas que têm criado nessas condições parecem despertar uma cumplicidade necessária para a vida social humana em harmonia. "Sinto que as pessoas sintonizam, se identificam e, por isso, se solidarizam com quem está com fé na vida e adquiriu a coragem de ir conferir, por mais excêntrica que seja a maneira escolhida para isso. Conhecer as pessoas, viver os lugares e perceber que sempre existe muito mais do que a onda que nos trouxe até ali."

Essa é uma história construída na estrada, dia após dia. Por isso, o projeto permanece aberto à parceria com empresas que se identifiquem com seus valores. Mais do que apoiar uma viagem, as marcas têm a oportunidade de fazer parte de uma narrativa real sobre esporte, aventura, simplicidade, sustentabilidade e conexões humanas. A continuidade da expedição depende principalmente dos custos de alimentação, manutenção da bicicleta e reposição de equipamentos, necessidades básicas para que a jornada siga até o destino final sem perder sua essência: viver com pouco, mas viver intensamente.

A expedição segue rumo ao Norte do Brasil. Nas Pororocas da Amazônia, onde o encontro das águas dos grandes rios com o oceano forma algumas das ondas mais singulares do planeta. Até lá, serão aproximadamente 3 mil quilômetros de bicicleta.

Mais do que alcançar um destino, João acredita que a verdadeira conquista está em tudo o que o caminho revela. Porque, às vezes, aquilo que buscamos nas ondas acaba sendo encontrado nas pessoas e em nós mesmos.

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