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As tartarugas e o ímpeto de comer canudo

16/Jun/2024 - Leandro Bonesi - Brasil
A partir de 2015, um vídeo angustiante de pesquisadores retirando um canudo de plástico da narina de uma tartaruga marinha viralizou nas redes sociais, catapultando o objeto aparentemente inofensivo ao status de vilão ambiental. Memes viralizaram, o produto chegou a ser proibido durante algum tempo em várias praias do Brasil e um projeto de lei que proibiria a distribuição do produto por estabelecimentos comerciais chegou a tramitar no senado. Mas ele é mesmo o vilão?  E a pergunta que não quer calar: a tartaruga e outros animais não sabem diferenciar comida de não comida?

Esse vídeo de oito minutos e seis segundos mostrando o sofrimento de uma tartaruga marinha presa em um canudo de plástico chocou o mundo e lançou luz sobre um dos maiores desafios ambientais da atualidade: a poluição por plástico. A comoção gerada pelo vídeo levantou questionamentos cruciais: a culpa é do canudo em si ou da sociedade que o descarta de forma irresponsável? E será que os animais, como a tartaruga, realmente não conseguem distinguir o que é alimento do que não é?

Buscando respostas a essas perguntas, cientistas publicaram um estudo na revista Science revelando que a ingestão de plástico não se limita aos animais marinhos. O estudo documentou o consumo de plástico por uma ampla gama de espécies, desde insetos antárticos até elefantes africanos, abrangendo répteis, aves, mamíferos e, claro, tartarugas. A pesquisa, que abrange regiões do Equador aos pólos, identificou animais de todos os níveis da cadeia alimentar, desde filtradores e herbívoros até predadores de topo. Isso sugere a transferência de plástico entre os diferentes níveis da cadeia alimentar, resultando em sua disseminação pelas teias tróficas dos ecossistemas e na concentração em níveis mais altos da teia.

Atualmente, o registro indica que ao menos 1.565 espécies de animais consomem plástico, das quais 1.288 são espécies marinhas. No entanto, o conhecimento sobre a ingestão de plástico por espécies terrestres e de água doce ainda é limitado, exigindo pesquisas mais aprofundadas. Vale ressaltar que a maioria das espécies documentadas no estudo foi observada em áreas com alta concentração de lixo plástico, evidenciando a forte correlação entre a presença de plástico nos ecossistemas e a ingestão por animais.

O aumento da quantidade de plástico nos ambientes marinhos, impulsionado pelo aumento de descarte irresponsável, tem gerado um crescimento exponencial no número de estudos sobre a ingestão de plástico por animais marinhos. As pesquisas abrangem diversos habitats, desde estuários tropicais e manguezais até as profundezas do oceano, revelando um panorama preocupante da contaminação por plástico em todo o planeta.

Figura 1: Avaliação global da ingestão de plástico por animais. (A) Número de espécies relatadas na literatura de 1980 até o início de 2021 que ingerem plástico. As espécies foram classificadas como terrestres, de água doce ou marinhas de acordo com o ecossistema do qual o registro de ingestão de plástico foi feito. (B) Cladograma mostrando ordens de vertebrados, com cada cor representando um grupo vertebrado diferente (peixes cartilaginosos em azul escuro; peixes ósseos em azul claro; répteis - Lepidosauria + Testudines + Crocodylia - em verde; aves em amarelo; e mamíferos em vermelho). Ramos laranja indicam um relato de ingestão de plástico para pelo menos uma espécie do clado. (C) Porcentagem de famílias de vertebrados com ingestão de plástico (barras vermelhas) relatada para pelo menos uma espécie nos sistemas terrestre, de água doce e marinho. Fonte: Santos et al., 2021.

A questão original de por que os animais comem plástico tem diversas respostas.

Inicialmente, quando os cientistas começaram a investigar o assunto, acreditava-se que a semelhança entre sacos plásticos e águas-vivas poderia estar confundindo as tartarugas-de-couro, um conceito conhecido como armadilha evolutiva. Ou seja, o animal evoluiu para se alimentar de uma certa forma e, quando outros itens de menor valor nutritivo, ou nenhum, no caso do plástico, começam a aparecer na natureza, o animal é levado a se alimentar desse novo item. No entanto, o caso do canudinho de plástico demonstra que a semelhança não é o único fator envolvido no aumento da ingestão desse tipo de lixo. Afinal, ao que tudo indica, canudos não se parecem com algas, o principal alimento da tartaruga do vídeo original.

Os autores do estudo destacaram algumas características que podem aumentar ou diminuir a probabilidade de ingestão de plástico, incluindo:

  • Semelhança com o alimento da espécie (física e química): Animais são mais propensos a ingerir plástico se este se assemelha ao seu alimento natural em termos de aparência e odor.
  • Seletividade da espécie (especialista ou generalista): Animais com alimentação especializada, que consomem uma gama muito específica de presas, são menos propensos a ingerir plástico do que animais generalistas, que possuem uma dieta mais ampla.
  • Estado nutricional: Animais famintos são mais propensos a correr riscos e ingerir itens desconhecidos, incluindo plástico.
  • Disponibilidade de plástico: Quanto mais plástico houver no ambiente, maior a probabilidade de os animais o encontrarem e o ingerirem.

Por que tanto plástico?

Desde a década de 1940, quando sua produção e consumo se intensificaram, o plástico vivenciou um crescimento exponencial, com sua produção anual aumentando mais de 260 vezes. As projeções para o futuro não são animadoras, estimando que a produção anual de plástico dobrará até 2042, passando das atuais 400 milhões de toneladas para 800 milhões. Essa trajetória ascendente é impulsionada, em grande parte, pela natureza descartável de grande parte do plástico produzido, como embalagens, copos descartáveis e o famigerado canudinho. Essa característica, aliada à sua leveza, resistência, baixo custo e maleabilidade, permitiu ao plástico se tornar um material onipresente em nosso dia a dia, moldando a forma como consumimos, embalamos e descartamos produtos.

Estamos produzindo tanto plástico que ficará um registro geoquímico e fóssil nas camadas da Terra para confundir os paleontólogos do futuro. E não é só nos oceanos que tem esse detrito, onde sabidamente é o local que fluem as águas dos continentes, e com elas o plástico. Há também nos rios, lagos, solos e até na atmosfera, cruzando milhares de quilômetros até se depositar longe do local de origem. Tem plástico nos nossos pulmões e até no sangue. O oceano é somente um componente do ciclo global do plástico (Figura 02).

Figura 2: A ubiquidade da poluição plástica. O fluxo e o acúmulo de plástico no meio ambiente são mostrados por setas vermelhas. O plástico está circulando por todos os sistemas da Terra e tem afetado animais com diversos nichos e características ecológicas. Todos os animais representados possuem registro de ingestão de plástico. Fonte: Santos et al., 2021.

Tem muito plástico porque ele é durável, de fácil manuseio e produção, tem muita matéria-prima disponível e é barato, ou seja, é mais lucrativo usar plástico que outros produtos, mesmo que mais duráveis a longo prazo. Em uma sociedade do consumo como a que vivemos hoje, em que tudo é mercadoria, a mercadoria vai ser embalada com plástico. Nessa sociedade, o uso de plástico será aceitável enquanto for lucrativo.

Tem solução?

Quando vemos projeções dos cientistas cada vez mais pessimistas, parece ser difícil enxergar uma solução, mas tem. Não é fácil, nem simples, mas é factível. Muito provavelmente não envolverá somente os três "Rs" (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) ou outros que se somem a eles. Talvez somente um seja suficiente. Revolucionar.

Precisamos revolucionar nossa relação com o meio ambiente. Lidamos com um planeta finito, com recursos finitos – água limpa, ar puro, recursos naturais renováveis, mas não ilimitados. No entanto, vivemos em uma sociedade que persegue o crescimento infinito. A solução reside em mudar nossa percepção das mercadorias. Devemos deixá-las de ser vistas apenas como fonte de lucro e passá-las a enxergá-las como ferramentas para atender às necessidades humanas. Somente assim, os canudos deixarão de ser produzidos e descartados às toneladas anualmente, passando a ser utilizados apenas quando indispensáveis ao atendimento de necessidades humanas específicas, como no caso de pessoas com mobilidade reduzida.

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Leandro Bonesi é Oceanógrafo, Mestre em Oceanografia Biológica e Doutorando em Oceanografia Ambiental. Atua como Gerente em uma empresa de consultoria ambiental e está nesse mercado desde 2007 tentando entender como o ser humano impacta o meio ambiente marinho. É também mergulhador credenciado PADI, fotógrafo subaquático e colecionador de momentos inesquecíveis no mar e na natureza.

 

Instagram: @lbonesi