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A culpa que entra no mar: sobre maternidade e o surf feminino

Uma reflexão sobre maternidade, cobrança e presença no surf feminino.

02/Mar/2026 - Juliana Frare - Brasil

Existe uma culpa silenciosa que muitas mulheres carregam para dentro do mar. Ela não aparece nas fotos, não está nos vídeos e não pode ser medida em métricas de performance, mas influencia cada decisão! Principalmente quando essa mulher é mãe.

Antes de vestir o jhon, ela já organizou o dia inteiro. Pensou nos filhos, na casa, no trabalho, nos horários, nas demandas invisíveis que raramente são divididas. Quando finalmente ela está pronta pra entrar no maŕ, o corpo está ali mas a mente ainda está distribuída em vários lugares.

E é nesse espaço interno fragmentado que a culpa começa a sussurrar.

Culpa por querer crescer.

Culpa por desejar ondas maiores.

Culpa por investir tempo em treinar sério.

Culpa por sonhar com viagens de surf.

Durante muito tempo, eu achei que o que me travava em algumas sessões era falta de técnica ou preparo. Mas a verdade é que, muitas vezes, eu entrei no mar me perguntando se deveria estar ali. Já pensei em desistir. Já remei com o coração dividido. Já ouvi inúmeras vezes a pergunta: “Com quem estão seus filhos agora?”

Como se a minha presença no mar precisasse de justificativa.

Ao mesmo tempo, também ouvi palavras que me fortaleceram. Pessoas que admiravam o fato de eu estar ali, mesmo carregando a responsabilidade solo de quatro filhos. E foi nesse contraste, entre o julgamento e o reconhecimento, que comecei a perceber que o peso não estava na prancha. Estava na narrativa.

A sociedade ainda associa maternidade à renúncia total. Existe uma expectativa silenciosa de que o desejo feminino precise ser reduzido para caber dentro do cuidado. Só que ambição não é abandono, crescer não é egoísmo, e ser mãe não anula o desejo de crescer e evoluir.

O que muitas mulheres vivem não é falta de capacidade, é a sobrecarga emocional. A mente exausta hesita mais, a decisão demora um segundo a mais, o medo ganha volume.

No surf, esse segundo muda tudo. E então a mulher acredita que precisa treinar mais, quando talvez precise, antes de tudo, aliviar o peso interno que carrega.

Porque o surf é estado mental. É presença. É clareza.

Quando a culpa diminui, a leitura de onda melhora. Quando a mulher entende que pode amar profundamente seus filhos e ainda desejar ondas grandes, algo se organiza dentro dela. A remada fica mais firme, a escolha mais consciente, a linha mais expressiva.

Não se trata de surfar menos. Trata-se de surfar inteira.

Talvez a evolução de muitas mulheres no surf não dependa apenas de técnica ou preparo físico, mas de uma permissão interna: a permissão de continuar crescendo sem se sentir errada por isso. E essa permissão muda tudo.

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Por Juliana Frare

Mãe de 4, surfista de ondas grandes e embaixadora do Surfguru