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São Paulo - Brasil

Nairê: a palavra final é sempre do mar

Nairê Marquez

A Nairê tem o mar como um dos seus melhores companheiros. Surfista da nova geração, a atual atleta de surf do Sport Clube Corinthians Paulista veio compartilhar conosco um pouco da sua história e deixar uma mensagem de inspiração pra todas as mulheres!

Nesse mês das mulheres, vamos compartilhar com a nossa comunidade um pouquinho sobre a história de algumas mulheres que inspiram outras a se jogar no mar. Vem conhecer a Nairê!

- Quem é você? 

Meu nome é Nairê Marquez, sou surfista da nova geração, tenho 15 anos e sou de Ubatuba (litoral norte de São Paulo).

- Como é a sua relação com o mar hoje? Como ela começou?

Minha relação com o mar começou antes de eu vir morar em Ubatuba. Quando eu nasci meu pai já surfava e tinha ensinado minha mãe a surfar. Com 1 ano e meio eu fui morar na Espanha por conta do trabalho do meu pai. Lá eu ficava no rasinho brincando com um morey (uma prancha de bodyboard). Voltei pro Brasil com 3 anos e pouco e algum tempo depois voltamos a morar aqui em Ubatuba. Eu comecei a surfar aqui, mas foi no Hawaii (morei lá dos meus 6 até os 8 anos, novamente por conta do trabalho do meu pai) que eu peguei mesmo gosto pelo surf. Lá era muito legal, pois toda tarde, eu e um monte de outras crianças, íamos para a praia de Waikiki, e ficávamos surfando todos juntos, às vezes de pranchinha, outras de pranchão, stand-up, canoa, etc… 


Eu sou uma pessoa realmente muito competitiva. Em tudo mesmo. E eu acho que seja por isso que eu goste tanto do surf, sobretudo o de competição. Hoje em dia minha relação com o mar é muito intensa, poderia dizer que o mar é praticamente a minha vida. O surf me acalma, me deixa feliz. Praticamente todos os meus amigos tem alguma coisa a ver com o surf ou com a praia e o mar.

- Qual foi o maior perrengue que você já passou no mar?

Eu surfo todos os dias e quando não tem onda eu vou nadar ou fazer alguma coisa na praia. Com esse contato tão intenso, algumas vezes passei algum perrengue. Na verdade, eu já passei vários perrengues no mar (risos). Mas eles fazem parte do surf e de estar no mar. Teve um dia que fui competir um campeonato em Maresias no ano de 2016. Neste tempo tinha 9 anos e eu tinha muito medo das ondas grandes. Não sei exatamente qual tamanho era aquele dia, mas pra mim estava bem grande. As crianças estavam surfando numa valinha mais embaixo, no inside, na entrada do canal. No meio da bateria parou de vir ondas, sentei na prancha para esperar, mas não percebi que a correnteza do canal me levou pro outside. Só fui perceber quando veio a série, era enorme e bem forte, quase entrei em pânico. Lembro de ter largado a prancha e levar a primeira onda na cabeça. Quando levantei do caldo, olhei para o lado e tinha um segurança de água do campeonato em um jet-ski não muito longe de mim. Tentei chamá-lo, mas ele estava falando no rádio e não me viu ou ouviu. Levei a segunda onda na cabeça, e quando terminou o rolo, comecei a gritar pra ele me tirar de lá.  Eu já estava ficando muito cansada levando as ondas de Maresias na cabeça, levei umas 4 ou 5 ondas. Quando a série acabou, comecei a remar pro inside e de repente ele estava lá do meu lado e me levou para a praia. Mesmo tendo chegado um pouco tarde, rsrsrs, me ajudou muito, e o agradeci um montão.

- Qual é a sua melhor lembrança dentro da água?

Nossa, todo dia eu tenho lembranças boas dentro d’água. Algumas que me marcaram muito, foram as minhas vitórias no Circuito Brasileiro de Surf Feminino (ganhei 6x, sub10 (2016), sub12 (2018), 3x sub14 (2017, 2018 e 2019) e sub16 (2019). Foram conquistas muito emocionantes pois estava com toda a família e amigos na areia. Fora dos campeonatos, foi muito marcante para mim, ter ido surfar no Peru. 

- Quais foram seus maiores aprendizados?

O mar e o contato com o meio ambiente de forma intensa, traz inúmeros aprendizados. O mar está sempre diferente, as ondas nunca são iguais, assim como a nossa vida, cada dia tem algo novo. Os oceanos cobrem, sei lá, algo perto de ¾ da superfície do planeta, e perto dele somos muito pequenos. Acho que o mar me ensina a me colocar no meu lugar, que a palavra final é sempre dele.

O surf em si ensina muitos valores, desde a humildade frente a nossos limites, o se desafiar para evoluir, assim como o companheirismo com o próximo. Acho que não existe nada melhor do que curtir um dia de altas ondas com seus amigos, conversando entre as séries, brincando e se divertindo.

- Qual o seu próximo desafio? Objetivo?

Está sendo muito difícil fazer projeções sobre o futuro nesse momento de pandemia. O que eu mais quero é que essa situação acabe logo. Fico muito triste em ver tantas pessoas indo parar na UTI, e tal.

Dentro do esporte, meus próximos desafios são acertar melhor os aéreos e ficar mais fundo nos tubos. Pensando lá na frente, eu gostaria de poder viver do surf, ou seja, fazer o que eu mais amo como um trabalho, chegar na elite mundial e ser campeã. Mas para os dias atuais quero saúde e felicidade para todos, e mais ondas para mim... hahaha.

- O que diria para uma mulher que está começando a se conectar com o mar?

Eu diria que nunca é tarde para começar a surfar, em qualquer etapa do processo de aprendizado o surf é muito divertido. Sentir as energias do mar, me faz esquecer de todos os problemas, acho que isso acontece com todos. Quero ver alguém lembrar de algum problema que ficou na terra, na hora que a maior série do dia pinta no horizonte... hahaha. 

Se conectar com o mar não é somente com a prancha de surf, mas pode ser nadando, remando, velejando, mergulhando, ou simplesmente contemplando da costa. 

Para mim, o surf e minha vida são uma coisa só e fica até difícil imaginar o começar a surfar, pois não lembro direito das minhas primeiras ondas, mas acredito que se você começar a surfar, sua vida melhore em 1000%. Seja pela pratica de esporte, seja pelo contato com o meio, seja pela cultura do surf, pelos amigos novos, ou pelo alívio de esquecer tudo, por breves instantes.  Viva o mar. É maravilhoso!

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